Anacoluto: caffeine for the mind, pizza for the body, sushi for the soul.

"We're not, as some people maintain, obsessed with pop culture so much as we're obsessed with its possibilities for stratification and dateability." (Thurston Moore)

1.9.04

Não, não tenho escrito muito, mesmo em face às pressõezinhas dos regulars do Anacoluto. Estou no meio de um daqueles declives escorregadios intelectuais que algumas pessoas conhecem, em que a sua mente borbulha com idéias basicamente amorfas, feitas de pequenos átomos lógicos que se chocam, se destróem, se fundem, se ligam, vão organizando mapas. Eu suponho que isto me aconteceu quando aprendi alguns truques de representação "topológica" de relações estruturadas entre conceitos que permitem configurações inteiramente novas ao meu velho modelo premissas-paradigmas-algoritmos-funções. Estive estudando grafos, topologia de circuitos digitais (de quantas formas você consegue representar um XOR em quatro camadas ou menos de ANDs, ORs e NOTs?) e de redes neurais.

Já vi este cenário antes. Muitas das coisas que descobri no tempo em que pesquisava relações gerais entre sistemas de regras (i.e. paradigmas) - digamos, para usar um exemplo matemático, a transformação de uma função em outra - permanecem no limbo do meu cérebro, incomunicáveis. A desculpa oficial é que o tempo de maturação dessas coisinhas (que não se medem em anos, mas em pulsos do errático ritmo do pensamento) cria algo como uma "tradição de pesquisa" que me é completamente interna, e é tão estranha para uma pessoa aleatória qualquer quanto o temo "modelo por cointegração" para um ator de filmes pornôs. E em todo caso, ainda consigo lançar mão de uma imagem compreensivel como o de uma transformação em um espaço de funções porque conheço alguma matemática que serve de exemplo "concreto" para o tipo de coisa em que penso para sistemas mais generalizados de pensamento.

Preciso, com alguma urgência, aprender a drill do exercício organizado do pensamento. Faltam-me exemplos "concretos" para esta forma mais geral (e o modelo premissas-paradigmas-algoritmos-funções cabe aqui como caso especial) de ligar conceitos posto que não tenho conhecimento "real" de coisas como teoria dos grafos "de verdade", topologia de redes, mapas auto-organizáveis. Por um lado, tenho o impulso a procurar esses tópicos - posto que fornecem exemplos concretos e muito bem-sucedidos do que estou pensando, mas por outro, talvez devesse dar um halt a toda essa atividade desorganizada e possivelmente improdutiva (se eu nunca conseguir escrever em equações como o sistema de conclusões racionais de, digamos, a economia austríaca, mina as bases intelectuais de todo o aparelho construtor das próprias conclusões racionais e implode, não terá servido de nada estar montando o modelo geral em que esse tipo de processo acontece).

Talvez a famigerada teoria das categorias me fizesse pensar de forma organizada em coisas muito abstratas e muito gerais. Mas o problema é, se estímulos externos (como o café fervente caindo nos meus pés descalços, ou uma menina de roxo propondo uma trégua) não conseguem impor uma pausa de alguns minutos a essa coisa que me consome toda a minha energia, como conseguiria um sistema árido, difícil de absorver, que não promete nem aplicações nem generalidade?

Ah, Mingus, dá um empurrãozinho a este pobre vulcãozinho-de-cerâmica abstrato.

12.8.04

Sinto-me estranhamente bem para um início de período. As férias de inverno costumam ser calmas, dedicadas a uma ou duas idéias de interesse; as férias de verão são passadas no IMPA. Em ambos casos, o contraste com a fábrica de salsichas me agride.

Pode ser o meu estado retraído. Tenho tentado manter diálogo com as pessoas importantes, mas ando muito mais introspectivo que o habitual, e mesmo as pequenas conversas têm me custado energia. Eu entro e saio de salas cheias sem ver nenhum rosto em específico; ando em silêncio ao lado das pessoas de sempre, e fico me perguntando o que elas têm pensado disso. Durante alguns instantes. Processamento paralelo, a minha ontologia marxista, John Updike e coisas ainda mais amorfas flutuam pela minha mente.

Outro dia, saímos para dar uma volta pela cidade de carro. Algo do tipo "que subversivo, estamos fazendo algo espontâneo". Foi uma experiência interessante. Eu não conseguia dizer muita coisa - todos os meus pensamentos se transformavam imediatamente em mitologias incomunicáveis - mas tinha uma estranha sensação de conforto, como se estas pessoas fizessem realmente parte da minha história.

Enfim. Sinto-me feliz, embora não consiga juntar energia para desfazer alguns excessos do período passado. Ei, você, eu não desisti de reatar o diálogo, apenas estou completamente voltado para dentro estes dias. Surpreendentemente, estou aprendendo a lidar lindamente com ambientes adversos, mesmo que dar aulas de monitoria esteja sendo uma tortura. Mas as minhas estratégias de adaptação não me permitem tomar iniciativas ainda.

Ei, talvez o mundo seja realmente mágico.

8.8.04

"The dead, Jesus. They were multiplying, and they look up begging you to join them, promising it's all right, it is very soft down here. Pop, Mom, old man Springer, Jill, the baby called Becky for her short time, Tothero. Even John Wayne, the other day. The obituary page every day shows another stalk of a harvest endlessly rich, the faces of old teachers, customers, liocal celebrities like himself flashing for a moment then going down. For the first time since childhood, Rabbit is happy, simply, to be alive. He tells Charlie, "I figure the oil's going to run out about the same time I do, the year two thousand. Seems funny to say it, but I'm glad I lived when I did. These kids coming up, they'll be living on table scraps. We had the meal."-- John Updike, "Rabbit is rich".

27.7.04

Semente de idéia

Marx é fundamental na história do pensamento econômico porque leva a teoria do valor intrínseco (derivado do trabalho) aceita por gente boa como Adam Smith e David Ricardo até suas últimas conseqüências, e demonstra, através do conceito de mais-valia, que o capitalismo é intrinsecamente injusto, e provavelmente inviável.

O ponto fundamental da discordância entre pessoas como eu, o Claudiux e o García e marxistas (mesmo que sejam por gut instinct ou educação - o que acontece a muita gente boa, como a Aninha Rebel) é precisamente a teoria do valor intrínseco. A partir dos marginalistas (na verdade, dos utilitaristas, mas estamos pensando em economia), o valor passa a derivar da utilidade, e demonstra-se que em determinadas condições, o valor de mercado reflete o valor-utilidade. É nessa identidade que uma doutrina liberal/libertarian racional se apóia.

A parte burra da esquerda optou por ideologizar-se, mas algumas pessoas espertas (vide Debord) centraram-se em criticar as premissas das quais se deriva a identidade valor de mercado-valor utilidade. Ainda voltarei muito a Debord, que desconstrói de maneira muito inteligente a racionalidade instrumental necessária à Identidade Liberal (termo que acabo de inventar :-)) montando uma teoria da alienação muito mais inteligente que a sustentada pelos marxistas militantes de hoje. Tal teoria da alienação explicaria o fenômeno Apple: engenharia ruim, marketing excelente, valor de mercado alto.

O problema é que para a grande maioria dos mercados vitais à infra-estrutura material sobre a qual nossa forma de viver se apóia, as premissas do equilíbrio geral valem - retornos decrescentes de escala, racionalidade instrumental, informação simétrica, etc. Não há, nessas bases, justificativa racional para postular uma inviabilidade do capitalismo, ou mesmo a desejabilidade (ergh) de uma revolução anti-mercados. Isto é, empiricamente, ao admitir o valor-utilidade, o marxismo se sabota, posto que a força de sua estrutura depende
fundamentalmente do valor intrínseco.

Desta forma, a única forma de salvar a esquerda e o marxismo - ao menos do ponto de vista da razão, do projeto socrático, da causa helênica - é centrar esforços no valor intrínseco, ou seja, construir uma ontologia materialista, uma framework dentro da qual se derivaria e demonstraria o valor das coisas. Isso forçaria todo o corpo da economia pós-marginalista que se apóia no valor-utilidade a aguçar a defesa desse princípio fundamental para além das objeções epistemológicas à possibilidade pragmática de um planejamento econômico (que em si implica em uma ontologia implícita, ou ao menos uma hierarquia dos valores).

Claro, é preciso que esta ontologia fuja das armadilhas típicas encontradas pelas teorias de organização industrial das economias planificadas. É preciso que seja dinâmica, endogeneizando a mudança constante de motivações por trás do que os homens entendem como realização para suas vidas. É preciso também que seja auto-sustentável por um sistema de regras estável, razão pela qual a teoria dos jogos precisa estar presente nela o tempo inteiro. Não podemos, simplesmente, confiar na ação positiva de uma burocracia.


Ei, você, leitor aleatório do Anacoluto. Se você resolver levar esta idéia à frente, eu quero crédito. Aliás, faça-me participar do seu projeto. Eu estou disposto a trabalhar com um marxista, mas não com essas massas educadas numa vulgata anti-mercados de vagas considerações humanistas. Se você entende do que eu estou falando, já é um bom começo. Eu tenho Orkut, procure-me.

26.7.04

Mais arte na eBay.

21.7.04

Exhale

O remix de "Breathe" é a melhor coisa de todo o Aphex Twin. Isola a agressão futurista das armadilhas da postura transgênero que veio caracterizar o Prodigy. Sobra justamente aquilo que torna "Breathe" do Prodigy paralelo a "Breathe" do Pink Floyd: o som surdo do choque entre a realidade feita de madeira àspera e as partes macias da Idéia.

20.7.04


Suppose for a moment that the automobile industry had developed at the same rate as computers and over the same period: how much cheaper and more efficient would the current models be? If you have not already heard the analogy, the answer is shattering. Today you would be able to buy a Rolls-Royce for $2.75, it would do three million miles to the gallon, and it would deliver enough power to drive the Queen Elizabeth II. And if you were interested in miniaturization, you could place half a dozen of them on a pinhead.
Christopher Evans


E é por isso, amiguinhos, que nenhum tema de economia é tão interessante quanto o problema do software.

8.7.04


Um recorte feminista vai encontrar um reacionarismo objetificante no novo single da Merrill "Peaches" Nisker (o alter-ego vulcão-sexual da líder dos angulares Fancypants Hoodlum) com o Iggy Pop. De fato, apesar da tônica agressiva de desafio, a narrativa tem Merrill se oferecendo ao macho alfa, um jogo de desafio e submissão que remete ao imaginário sexual de uma outra geração.

Eu tenho duas perguntas. Primeiro, o fato de que o Iggy responde à série de homenagens (na forma de referências a sua obra) de Merrill com algumas referências ao primeiro disco dela como Peaches significa que ele a reconhece como artista relevante no mesmo gênero em que ele fez "Raw Power" e "The Idiot" e/ou reação à chatura entenda-meus-hormônios de Lil' Kim e quejandos?

Segundo, posto que a rejeição à politização de sua sexualidade via feminismo é parte importante do discurso de Merrill, é válido dizer que ela está sendo política ao se recusar a ser política? Em outras palavras, uma mulher pode assumir uma estética sexual do tipo desafio-e-submissão apesar do feminismo, mas não contra o feminismo?

7.7.04

E enquanto o Cacá Diegues e o Tony Ramos pedem "proteção para a cultura brasileira", há um artista à solta na eBay. Esta peça é mais conceitual, e esta mais baudelaireana.

29.6.04

Lições do semestre
Ou, coisas que eu já sabia, mas deixei de lado mais uma vez


  1. Eu preciso de tempo para sonhar acordado, tempo para programar, tempo para treinar escalas, tempo para refletir sobre música, tempo para escrever, tempo para pensar em matemática, em política, enfim, tempo para todas as atividades de conceitualização abstratas que me tornam uma pessoa real.
  2. O meu ethos quixotesco não é mais cancelável, e ao abdicar dessas coisas, só me sinto mal e me torno incapaz de responder às cobranças e pressões.
  3. Algumas pessoas não demonstram suas reais emoções, mas esperam que os outros reajam em função delas.
  4. Onde um dos jogadores adota a estratégia do gatilho, o equilíbrio do dilema do prisioneiro é estável, mesmo que não seja pareto-ótimo.
  5. Preciso investir mais na coisa numérica. Tenho uma tendência natural à conceitualização em nível cada vez mais abstrato, e sem freios não paro antes da teoria das categorias, ou pior, da própria ontologia. Tenho uma crush pela coisa numérica que se reacendeu no curso de Computacional do IMPA, e devo investir a minha tendência à conceitualização nesse sentido. Simulação, redes neurais, lógica fuzzy - são esses os campos que devo perseguir.
  6. Sete disciplinas é muita coisa. Isso não quer dizer que eu não vá voltar a fazer sete disciplinas agora (com duas eletivas pesadas, cálculo III e Inteligência Computacional), mas que eu não posso levar isso no ritmo que levo um período de cinco disciplinas como foi 2003.2 - não posso ficar duas semanas sem olhar para as matérias.
  7. CR Imperator Mundi
  8. Não existe incompatibilidade real entre ser o doce de pessoa que eu sou, e deixar que as outras pessoas percebam isso. Tenho um resto platônico muito forte que repele as aparências. Às vezes algumas pessoas, mesmo que gostem de você e saibam que você não as quer mal, precisam dessas aparências.
  9. O acaso não vai me proteger quando eu andar distraído

18.6.04



Não andei escrevendo muito ultimamente, e pior, vem aí uma temporada de provas para as quais nem comecei a estudar. Isso deve me colocar fora de operação por pelo menos duas semanas. Aos habitués, peço paciência - pode ser bom escrever seu email na caixinha ao lado para ser avisado de novidades. Aos novos, é característica deste blogue que os posts antigos valem muito mais (relativamente aos novos, bien sûr) do que os posts antigos de um blogue oh-odeio-meus-pais-vou-sair-de-casa.E, Cíntia, eu ligo pra você neste fim de semana, eu prometo.

12.6.04

Idéia insone

E se o conceito de responsabilidade individual for uma mera abstração jurídica?

10.6.04

As pessoas que quiserem falar comigo terão que usar o ICQ 3189502.

O esquema do guestbook estava tornando muito difícil manter a minha vida pessoal separada do Anacoluto. E, Santo Mingus, tudo o que eu precisava era de um pouco de paz.

7.6.04



White on white
translucent black capes
back on the rack.
Bela Lugosi's dead.
The bats have left the bell tower,
the victims have been bled,
red velvet lines the black box.

Bela Lugosi's dead.
Undead Undead Undead.

The virginal brides
file past his tomb,
strewn with time's dead flowers,
bereft in deathly bloom,
alone in a darkened room
the count.

Bela Lugosi's dead.
Undead Undead Undead.

Oh Bela, Bela's undead.

6.6.04

"Opiniões fortes", ele disse

juntando-se ao esforço para solapar a idéia socrática na base de todo nosso conceito de cultura.

Enquanto isso, farto de azul, seu alvo observa melancólico um fio de cabelo escondido num livro por volta da última olimpíada.

3.6.04

Edital do Grande Concurso Cultural "Seja a Mrs. Anacoluto"

Entre comentários, posts vagos, e referências culturais kitsch, eu acho que ficou relativamente nítido que eu tenho esta coisa aparentemente incurável pela Aninha Rebel.

Sim, ela sabe disso, e sim, nós discutimos muito o assunto. E temos um consenso espontâneo de que nada será feito a respeito. Pelo lado dela, bem, ela tem necessidades radicalmente distintas e incompatíveis com as minhas. E ela mora lonjabeça, em uma espécie de Alphaville godardiana a [3ln(7)/2] horas do centro de Niterói, que já fica a [(-1/3)(e^pi*i)] horas daqui. Pelo meu lado, hã, essa história toda tem uma clout emocional espessa demais antes mesmo de começar, o que torna tudo muito cansativo, e eu não preciso de um relacionamento como um problema adicional, mas como um fator de estabilização.

Tenho um amigo que diz que eu não preciso de uma namorada, preciso de molas de suspensão novas. Ele tem razão.

A grande pergunta é, por que você, potencial candidata ao G.C.C.S.M.A responderia ao anúncio de um sujeito notóriamente pernóstico, cuja aparência você desconhece, que deve ter padrões mínimos impossíveis de atrativos físicos e intelectuais ao pré-selecionar as candidatas, que pretende usar você como mola de suspensão e ainda por cima se declara apaixonado por outra menina?

Ora, porque eu conto ótimas piadas! Mesmo pessoas que odeiam a mim e a todos os valores que me são mais caros, como a Ralissa, podem confirmar isso.

Como sempre, as candidatas interessadas podem se inscrever para o concurso na caixinha de comentários indicada com um CRÁS, aí embaixo. Para mais informações sobre o prêmio, hã, ver o resto do blogue.

Um tanto cínico para um personal ad, eu sei. "Starfuckers Inc." do Nine Inch Nails pode não dar o clima certo para um anúncio destes, que requer este equilíbrio instável entre súplica e propaganda, entre grovelling e poder. So sue me.

31.5.04

Aninha, tu és o meu máximo denominador comum.

28.5.04

Duas vocações

O economista em mim não precisa censurar o crítico cultural. Parece tolo, mas é uma grande descoberta. Eu posso acreditar no mercado como provedor de soluções sociais ótimas e ser um crítico de seus resultados no campo da cultura.

A crítica da cultura não implica em um chamado à intervenção, ou mesmo na posição freqüentemente associada de que o vazio cultural é um resultado necessário da natureza de um sistema político-barra-econômico subjacente. Eu não preciso nem mesmo montar um argumento de falha de mercado, embora haja um muito forte no alto custo de entrada no mercado cultural.

Em todo caso, as barreiras de entrada estão caindo, e em nenhuma época da História houve uma tal diversidade cultural acontecendo em uma velocidade tão alta. Claro, a menina da xerox da PUC não está necessariamente ouvindo Squarepusher, mas as evidências de que o capitalismo está, afinal, chegando, são cada vez mais fortes.

É claro que a gradual expansão destas subculturas que re-valorizam a inteligência vai enfrentar uma sociedade não preparada pra isso. É claro que no dia em que o Multishow descobrir Squarepusher, caetanos e chicos vão espernear. E, num mundo onde grupos especiais de interesse determinam soluções políticas (mesmo que não no âmbito dos governos, mas na máquina privada produtora de cultura) inferiores às que surgiriam espontâneamentee, o sucesso eventual da inteligência não é seguro.

Assim, a crítica da cultura é, sim, válida. Há mais inteligência em Alan Licht do que em Ubiratan Iorio, mesmo que este repita algumas verdades fortes pinçadas de bons livros, enquanto aquele desconfie que a correlação entre a teoria sócio-política (o capitalismo) e o fenômeno cultural (pocotós e mariaritas) implique em causação. A ingenuidade de Alan Licht é vital onde a sabedoria de Ubiratan Iorio é burra: no lugar em que a inteligência ocupa na hierarquia dos valores.

Sou uma espécie de liberal por experiência do torpor da burocracia estatal e por fatos demonstráveis a respeito de mercados estilizados, mas não coloco a política acima da inteligência. A inteligência deveria estar no topo da hierarquia dos valores, porque sem ela não definimos com clareza aquelas coisas importantes todas como "ética", "bem", "belo", "verdade", e ficamos vulneráveis às sucessivas ondas de double-speak. A distopia orwelliana é antes de tudo uma de exílio da inteligência.

É por isso que eu queria que um homem como Richard "RMS" Stallman se candidatasse à presidência americana, muito embora eu discorde fundamentalmente das suas posições-chave. Dubya Bush é um bobão, John Kerry é um family guy intranscendente, e mesmo o velho e bom Ralph Nader está ficando mais velho que bom, e não aprendeu a programar em C para acompanhar os tempos.

Precisamos reinjetar inteligência em todos esses debates; colocar o posicionamento estratégico acima da inteligência é um declive escorregadio ao longo do qual estamos deslizando, parando para pensaar apenas quando trocamos um Carter por um Reagan, um Andropov por um Chernenko, um FHC por um Lula.

Santo Mingus, que saudades que tenho de Fernando Henrique...

19.5.04

Sobre a melodia de "Money for nothing" dos Dire Straits


I want my KDE
I want my KDE

Now look them at yo-yos - that's the way you do it
you write QT apps for your KDE
that ain`t coding - that's the way you do it
software for nothing and bits for free
Lemme tell ya them guys ain't dumb
Maybe get a blister on your little finger
Maybe get a blister on your thumb

We gotta install kdelibs3
we gotta install that kdepim
we gotta write for kdevelop
we gotta pack that tar.gz

See that little faggot with the black t-shirt
yeah buddy he's really that fat
that little faggot got his own custom windec
that little faggot he's a programmer

We gotta install kdelibs3
we gotta install that kdepim
we gotta write for kdevelop
we gotta pack that tar.gz

I should have learned how to gzip and untar
I should have learned to write Python
Look at that mama, she's stickin the USB camera
man we could have some fun
and he's up there, what's that? segfault errors?
melting up his core dumps, crashing XFree
that ain't coding - that's the way you do it
get your software for nothing and bits for free

Now that ain't coding - that's the way you do it
you write QT apps for your KDE
that ain't working, that's the day you do it
software for nothing and bits for free

I want my
I want my
I want my KDE

18.5.04

Omega Amigo

Alan Greenspan foi re-nomeado para presidente do Federal Reserve Board.

É interessante que a essa altura compreendamos bem os escorregões do Fed em vários pontos da história. É interessante também que Greenspie tenha sido aclamado como maestro por gente de várias posições políticas. Nunca é demais relembrar que é Bush quem está renovando Greenspie, muito embora este seja acusado de ajudar os democratas durante a grande expansão dos 1990. Pareceria que a macroeconomia está finalmente entendendo as coisas, e que talvez Keynes estivesse certo ao sonhar que os macroeconomistas seriam encarados como "bons dentistas" algum dia.

Sim, os austríacos podem espumar. Mas, bem, o Ubiratan Iorio nunca foi aclamado como maestro. Polemistas há em cada esquina.

7.5.04

"Pinkerton" é o meu Weezer favorito.

Os outros álbuns têm muito Weezer tentando ser o Weezer.

6.5.04

Uma modesta proposta

Visto e considerando que:

  1. Os bons livros brasileiros são raros - embora não tanto quanto os bons discos brasileiros - pelas mesmas razões que são raros os bons músicos brasileiros, embora de forma muito menos severa.
  2. Mesmo sob regimes de isenção de alguns impostos, importar livros é caro, em parte por causa dos custos do frete, e em parte porque estes recebem um preço compatível com o bolso estrangeiro, geralmente melhor provido que o nosso.
  3. Traduzir é caro, os bons tradutores são menos raros que os bons músicos, mas ainda assim difíceis de encontrar, e as traduções que chegam ao mercado são de chorar de tão ruins.
  4. Andorinhas africanas sabem mais sobre diagramação e layout que os editores brasileiros.

propõe-se que
  • Editoras gráficas brasileiras reeditem livros estrangeiros, sob licença e usando as matrizes originais das edições estrangeiras, sem tradução ou rediagramação. Um novo filão editorial será descoberto, as editoras estrangeiras ganharão os habitués de fotocópias que não conseguem comprar a edição original, e a priori o mercado de traduções não deveria ser muito afetado. Estou certo de que há muitos livros sem demanda o suficiente para bancar o processo de tradução e reedição, mas que gerariam lucro numa reimpressão autorizada, saindo tudo mais barato para todos.

4.5.04

Note to self: nunca mais conduzir experimentos de otimização neuroquímica em mim mesmo durante a época de provas.

26.4.04

Frio

Faz frio às cinco e meia da tarde no IPEA. A sala de estagiários compartilha o ar-condicionado com o servidor da rede e do website, e à medida que o calor lá fora se esvai, o ambiente aqui dentro vai ficando gelado.

Às vezes tento lutar contra o frio ouvindo Django Reinhardt ou Earl Hines, mas nunca funciona realmente. Conheço gente que tenta equilibrar seu estado de humor com música no sentido oposto, mas eu nunca pude tolerar a desarmonia em que isso implica.

É um estado de espírito temporário, em grande parte estimulado pela certeza de que estou irradiando calor para além do meu controle, e me sentindo cada vez mais frio por causa disso.

Só resta "The Ascension" - o contraste entre o caos circundante e a lógica interna (o cosmo sangrento e a alma pura, como disse um outro), e a necessidade de ser frio para permanecer vivo, ou de rodear-se de frio para isolar o calor interno.

Então eu me cubro com muita roupa, e não consigo reconhecer a pessoa que (não) fez a declaração de ontem. Só um feriado prolongado, e um longo tempo fora do ar-condicionado permitiria que esta outra pessoa aflore. E predomina a quieta certeza de que emoções são coisas raras e frágeis, que devem ser escondidas, porque o mundo lá fora nunca saberá apreciá-las.

25.4.04

Sete fatos divertidos sobre o conflito árabe-israelense e uma declaração de amor


  1. Yasser Arafat foi virtualmente o líder do Setembro Negro, o grupo que dizimou a delegação israelense nas olimpíadas de Munich. Faz você pensar sobre o tipo de pessoa com que se é obrigado a negociar
  2. A lei islâmica exige que qualquer terra que já tenha sido de controle islâmico deve permanecer sobre controle islâmico. A imprensa esqueceu deste fun fact quando dos atentados na Espanha. Esta é a razão pela qual os assentamentos palestinos não foram transferidos para regiões desabitadas da Jordânia, gerando o problema social que eles são hoje. Fica a pergunta - dada a oportunidade, será que "eles" hesitariam em marchar sobre Viena?
  3. Israel é a única democracia pluripartidária de toda a região, chegando a contar com um partido árabe de presença significativa no parlamento.
  4. Mais de um milhão de judeus foram literalmente expulsos de casa em países árabes a partir de 1947. Estas pessoas não esperam mais compensação jurídica, e foram absorvidas por Israel - razão pela qual não existem campos de refugiados de judeus. Em contraste, as nações árabes essencialmente deixaram o problema palestino explodir até a presente condição de miséria, miserabilidade e miserabilórdia que faz com que tantos jovens palestinos se juntem a brigadas de mártires por absoluta falta de perspectivas.
  5. Árabes israelenses não são obrigados a servir o exército de Israel - acabariam lutando contra o seu próprio povo. Muitos empregos públicos requerem que você tenha servido o exército, mas nada impede que um árabe tenha feito isso, se tornando legalmente indistingüível do Ariel Sharon.
  6. Imediatamente após a Guerra dos Seis Dias, em que Israel tomou do Egito a Península do Sinai, e da Síria as colinas de Golã, Israel propôs devolver essas terras em troca de um acordo de paz definitivo. O Egito e a Síria se recusaram.
  7. A última rodada de negociações de algum peso, em Camp David, 2000, terminou porque Yasser Arafat se recusou a fazer uma contra-proposta à idéia israelense de formar um Estado independente em duas faixas descontínuas de terra. A atual intifada é um resultado disso.


(Não, não há declaração de amor nenhuma - não consegui escrevê-la, e o título ficou como testemunha. É algo um pouco despropositado, anyway. Algo que deveria ter sido dito numa noite escura de uma cidade distante há três anos. Vocês sabem, in New York freedom looks like too many choices, e ainda não entendo por completo - que dirá naquela época - o sentido de algumas palavras que surgem ao pensar nesta pessoa. Enfim, os leitores habituais podem ver que o Anacoluto está voltando ao seu formato "normal", e prometo que a temporada de desabafos, resoluções e declarações de amor interrompidas está perto do fim.)

13.4.04

Pascácios! Pacóvios! Lorpas!

11.4.04


"(Howard Roark) That, precisely, is the deadliness of second-handers. They have no concern for facts, ideas, work. They're concerned only with people. They don't ask, 'Is this true?' They ask: 'Is this what others think it's true?' Not to judge, but to repeat. Not to do, but to give the impression of doing. Not creation, but show. Not ability, but friendship. Not merit, but pull. What would happen without those who do, think, work, produce? Those are the egotists. You don't think through another's brain and you don't work through another's hands. When you suspend your faculty of independent judgement, you suspend consciousness. To stop consciousness is to stop life. Second-handers have no sense of reality. Their reality is not within them, but somewhere in the space that divides one human body from another. Not an entity, but a relation - anchored to nothing. That's the emptiness I couldn't understand in people. That's what stopped whenever I faced a comittee. Men without an ego. Opinion without a rational process. Motion without brakes or motor. Power without responsibility. The second-hander acts, but the source of his actions is scattered in every other living person. It's everywhere and nowhere and you can't reason with him. He's not open to reason. You can't speak to him - he can't hear. You're tried by an empty bench. A blind mass running amuck, to crush you without sense or purpose. Steve Mallory couldn't define the monster, but he knew. That's the drooling beast he fears. The second-hander.

(Gail Wynand) I think your second-handers undestand this, try as they might not admit it to themselves. Note how they'll accept anything except a man who stands alone. They recognize him at once. By instinct. There's a special, insidious kind of hatred for him. They forgive criminals. They admire dictators. Crime and violence are a tie. A form of mutual dependence. They need ties. They've got to force their miserable little personalities on every single person they meet. The independent man kills them - because they don't exist within him and that's the only form of existence they know. Notice the malignant kind of resentment against any idea that propounds independence. Notice the malice towards an independent man. Look back at your own life, Howard, and at the people you've met. They know. They're afraid. You're a reproach.

(Howard Roark) That's because some sense of dignity always remains in them. They're still human beings. But they've been taught to seek themselves in others. Yet no man can achieve the kind of absolute humility that would need no self-esteem in any form. He wouldn't survie. So after centuries of being pounded with the doctrine that altruism is the ultimate ideal, men have accepted it in the only way it can be accepted. By seeking self-esteem through others. By living second-hand. And it has opened the way for every kind of horror. It has become the dreadful form of selfishness which a truly selfish man couldn't have conceived. And now, to cure a world perishing from selflesness, we're asked to destroy the self. Listen to what is being preached today. Look at everyone around us. You've wondered why they suffer, why they seek happiness and never find it. If any man stopped and asked himself whether he's ever held a truly personal desire, he'd find the answer. He'd see that all his wishes, his efforts, his dreams, his ambitions are motivated by other men. He's not really struggling even for material wealth, but for the second-hander's delusion - prestige. A stamp of approval, not his own. He can find no joy in the struggle and no joy when he has succeeded. He can't say about a single thing: 'This is what I wanted because I wanted, not because it made my neighbors gape at me.' Then he wonders why he's unhappy. Every form of happiness is private. Our greatest moments are personal, self-motivated, not to be touched. The things that are sacred or precious to us are the things we withdraw from promiscuous sharing. But now we are taught to throw everything wiithin us into public light and common pawing. To seek joy in meeting halls. We haven't even got a word for the quality I mean - for the self-sufficiency of man's spirit. It's difficult to call it selfishness or egotism, the words have been perverted, they've come to mean Peter Keating. Gail, I think the only cardinal evil on earth is that of placing your prime concern with other men. I've always demanded a certain quality in the people I liked. I always recognized it at once - and it's the only quality I respect in men. I chose my friends by that. Now I know what it is. A self-sufficient ego. Nothing else matters."

(Ayn Rand, "The Fountainhead")

10.4.04

Chafariz

Da primeira vez que li The Fountainhead, não consegui prestar atenção em nada além da oposição fundamental entre o tipo Howard Roark e o tipo Peter Keating. As pessoas em geral têm idéias morais muito difusas, e embora eu pense um pouco mais em casos-limite do que as pessoas ao meu redor, não tenho ainda uma teoria mais geral do que é certo.

Os efeitos da identificação são difíceis de separar: até que ponto eu encontrei em Howard Roark um reflexo da minha própria filosofia de vida, e até que ponto o seu heroísmo fulgurante influenciou a forma como enquadro esses problemas de moral?

O que é nítido que apenas depois dessa leitura, passei a procurar Peter Keating, Dominique Francon e Ellsworth Toohey nas pessoas que demonstravam alguma força. A moral é uma expressão do pessimismo, e embora fosse uma taxonomia útil, não era conceitualmente diferente de procurar Oliver e Laurel Hardy. Em vários pontos, julguei erradamente pessoas como peterkeatings, e só passei a entender o impulso pragmático, insensível de algumas pessoas depois de tomar contato com um sistema taxonômico mais sofisticado - o MBTI.

Claro, por sua vez, o MBTI me trouxe a idéia de que o conjunto de motivações gerais que estão por trás das opções das pessoas passa paralelamente ao plano da moral. A linguagem clínica da psicologia funcional tem dessas coisas: naturaliza a ação humana como se esta não fosse por definição ação, sujeita a julgamento.

O MBTI me fez aceitar alguns peterkeatings na minha vida. E pode ser um pouco doloroso romper com hábitos intelectuais tão otimistas e simplificadores quando o amoralismo psicológico. E claro, as pessoas deixam marcas. Não tenho o foco irresistível de um Howard Roark (um personagem idealizado, claro), e pessoas vão se tornando importantes por razões inteiramente irracionais.

Decisões envolvem dor. Eu vou passar a vida inteira me acostumando à idéia.

Enfim. Estou lendo The Fountainhead de novo, e passando ao largo da filosofia moral. O que mais tem me impactado é a densidade da civilização e como ela se expressa na arquitetura. De fato, meus sentidos têm se aberto, embora ainda não tenha propriamente uma educação arquitetônica, e tenho começado a fazer pequenas tentativas de juízo.

Às vezes, a forma como penso em arquitetura me lembra a forma como algumas pessoas mais simples pensam em música - não como um sistema complexo de significados que começam nas opções teóricas mais profundas, passam pela construção formal e desembocam no sistema de gêneros e referências em que uma determinada obra se situa, mas simplesmente como um barulhinho organizado que agrada ou desagrada.

Tenho tomado caminhos muito mais longos que o necessário na saída do IPEA, para passar pelos meus prédios favoritos no Centro. Ainda não entendo o suficiente para esboçar um comentário, e talvez me impacte mais o clima, o mood de todo um ambiente formado por várias construções de contextos arquitetônicos completamente diferentes, do que a inteligência de um prédio específico.

E como todo garoto que descobre as dissonâncias e o heavy-metal, me atraem estruturas que quebram a coerência de uma landscape, estruturas que não deveriam estar lá num mundo perfeitamente coerente.

O Ministério da Fazenda é um pedaço de história nazista no meio de uma paisagem ensolarada que parece contradizê-la, a abundância de relógios em caracteres germânicos é testemunha de um projeto de desenvolvimento que esqueceu das pessoas para quem era pensado, e os imensos cinzeiros em forma de piras funerárias são um comentário irônico sobre a própria natureza da política.

O chafariz gigantesco na Cinelândia é uma colagem desproporcional, um relógio derretendo - uma combinação de classicismo e absurdo que foi feita com maior e menor bom senso nas artes plásticas, mas que me agrada por injetar um pouco de caos no cotidiano apressado destas pessoas todas que vivem sem sentido.

Eu poderia estar mais feliz. Mas a felicidade é por vezes contraproducente, e talvez seja verdade que nada importante acontece sem um batismo de fogo e gelo. No médio prazo, preciso aprender a lidar com as minhas emoções, mas por enquanto, aprender a ouvir a arquitetura já torna a vida uma experiência muito mais carregada de sutilezas e meios-tons.

31.3.04

Sabe quando, na noite de ano novo, os fogos de artifício precipitam a chuva?

Aparentemente, o fato de eu não ter recebido um email precipitou uma turn of events que, embora inevitável, não tinha data pra acontecer.

Enfim. Se eu tivesse tentado fazer isso pessoalmente, acabaria reagindo emocionalmente e me desculpando por coisas que eu não fiz. De algum forma, eu precisava ser frio. E embora a Ralissa possa estar algo emputecida agora, ninguém saiu ferido, não há conflito e/ou partido a ser tomado, e talvez o Glenn Branca venha a vender alguns discos a mais.

Um outro questionamento possível é a necessidade de tornar isso público. E, sim, a coisa acabou indo mais para o lado pessoal do que eu queria - eu tinha planejado falar sobre mudanças, e este caso era apenas uma parte da mudança - mas eu tinha sono, algumas emoções negativas, e nenhuma vontade de tornar isto menos difícil.

Enfim. Eu devo desculpas aos leitores regulares do Anacoluto, que estão aqui para me ler falando mal do Lula e da MPB, e ao Cláudio, que estava mais ligado à Ralissa do que eu tinha pensado.

Ah, e Jugovic - vá à merda, meu filho.

28.3.04

Uma carta aberta de despedida

Ralissa, não sei que merda houve com você. Mas eu sabia que isso tinha que acontecer alguma hora, e talvez seja bom que tenha acontecido agora. Talvez seja o símbolo de algumas mudanças que têm que acontecer agora, e que circulam em torno do fim do meu tempo livre, agora que estou muitocupado no trabalhestágio.

No fundo, sempre tivemos projetos de vida completamente incompatíveis, visto que não estou disposto a vender a minha alma por dois pontos na prova do Tinoco, e não sei por que quis contar você na lista de pessoas que foram importantes em alguma época. Uma das coisas mais assustadoras para um INTP é ser confrontado com a evidência de que agiu de forma irracional, mas fica o consolo de que isso nunca foi, na verdade, uma traição de princípios.

Mas você marca uma época, e na verdade acho que é dessa época que estou me despedindo. Você não é o símbolo mais adequado para essa época, mas é uma coincidência cronológica feliz. Eu acabo de ler o seu post no Tostando M., e na verdade, sinto-me feliz de ter tido um sonho, e ter ido além do razoável por ele.

O mundo não é mágico, as coisas não caem no lugar sozinhas, mas ainda podem ser perseguidos trade-offs perfeitamente razoáveis, que não representam uma traição de princípios. Em um universo quase aleatório, ainda existem certas combinações, e a natureza para ser comandada, deve ser obedecida.

Enfim. Eu espero que você tenha uma ótima vida, que cace muitas perdizes e que ouça mais Glenn Branca e menos Simon & Garfunkel. Você não quer ter uma crise existencial de proporções amazônicas aos 35 anos, e por isso é bom que você equilibre um pouco esse seu pragmatismo como estrutura com um pouco de celebração do caos em estado puro.

Ah, não é tão triste quanto parece. People don't live or die, people just flow.

22.3.04

Les mots

Frase da Casa Branca sobre o assassinato do líder do Hamas:

We are deeply troubled by Israel's assassination of Hamas leader Sheikh Ahmed Yassin

Interpretação do Jornal Nacional:

A Casa Branca não condenou o assassinato, e grupos palestinos dizem que a vingança deve ser contra os americanos, não contra Israel

Hmmm.

19.3.04

Boas notícias para o presidente Lula

O desemprego caiu.

Diego Navarro saiu das estatísticas do desemprego, e vai trabalhestagiar no IPEA.

16.3.04

Mais formas como Dubya Bush pode acabar com o grande capitalismo americano

É realmente triste quando o americano comum começa a se preocupar se o governo chinês vai impedir a Microsoft de integrar a BIOS ao Windows, impedindo - ou dificultando muito seriamente - a instalação de qualquer outro sistema operacional.

Informação mais densa pode ser lida aqui.

Sim, há apenas alguns anos, na era Clinton, estávamos discutindo seriamente se o predomínio da Microsoft era daninho à concorrência, mesmo em algo de relativa pouca importância como o mercado de browsers web.

Tem horas que eu acho que é Dubya Bush que está metido na grande conspiração comuno-totalitária.

15.3.04

Econometria de orelhada

Qual destas regressões aproxima melhor os dados?




14.3.04

O Incrível Caso de Dmitry Sklyarov - ou, porque Dubya Bush pode ser letal para o futuro do grande capitalismo americano.

Um resumo, cortesia da EFF, uma campanha a favor do homem, uma explicação (um tanto panfletária, mas instrutiva) sobre o tal do DMCA, e a campanha da EFF sobre o assunto.

12.3.04

If

Não costumo gostar de blogues cortar-colar, mas todo dia conheço uma nova pessoa que não sabe que a verdade não vem dos outros, do pensamento dos outros e do julgamento dos outros.

Los jóvenes de hoy en dia não cresceram lendo grandes poemas morais. É pena. Sou uma pessoa frágil, e é surpreendente que eu tenha mais estrutura, mais valores e mais verdade emergindo do meu espírito que quase todo mundo que conheço.


If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you;
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too;
If you can wait and not be tired by waiting,
Or, being lied about, don't deal in lies,
Or, being hated, don't give way to hating,
And yet don't look too good, nor talk too wise;


If you can dream - and not make dreams your master;
If you can think - and not make thoughts your aim;
If you can meet with triumph and disaster
And treat those two imposters just the same;
If you can bear to hear the truth you've spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to broken,
And stoop and build 'em up with wornout tools;


If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breath a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: "Hold on";


If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings - nor lose the common touch;
If neither foes nor loving friends can hurt you;
If all men count with you, but none too much;
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds' worth of distance run -
Yours is the Earth and everything that's in it,
And - which is more - you'll be a Man my son

Rudyard Kipling, "If".

8.3.04



O Steven Wright - um INTP entre os INTP's - freqüentemente conta uma história supostamente verídica de como, por volta dos oito anos, teria ido se queixar a uma professora no final da aula.

"I don't get it", dizia ele. A professora, provavelmente uma dessas moças prestativas mas essencialmente clueless em relação às nervuras do real - não muito diferente de D. Ottalice - respondeu algo do tipo "O que, precisamente, você não entende?"

"What, exactly, don't you get?". Apontando para a rua, para as pessoas, o jovem Steven Wright responde:

"Just in general. I don't get it."



Este é um mundo realmente esquisito, mesmo para pessoas inerentemente melhor adaptadas a ele, como a Ralissa. Em recente ensaio no Tostando M., ela discorre de modo meio amorfo sobre tipos de amizade.

A verdade é que eu não entendi muita coisa, e acabei deixando um comentário que em linhas gerais eu conhecia dois tipos de pessoas - aquelas de que gosto, e aquelas que são como vegetação com pernas e bocas, uma espécie ambulante da Grande Planta do filme "Little Shop of Horrors".

Eu sempre fui bastante positivo em relação a não trabalhar com categorias confusas, e usar de modo naïf as idéias dicotômicas de gostar e não gostar. E isso pode ser muito problemático, porque as relações que as pessoas estabelecem acontecem dentro de um espectro muito denso, e acaba que eu não consigo estabelecer uma diferença entre a Aninha Rebel, que me procura quando ela está deprimida, e a Ralissa, que me procura quando eu estou deprimido.

Pareceria que eu tenho muitos amigos. No total devem ser umas quinze pessoas, mas são pessoas tão ricas, e tão diferentes, que fica a sensação de que são muito mais.

Outro dia, na pressa de encontrar uma moldura teórica que fizesse sentido e me permitisse fugir de uma conversa mais emocional, defini "amizade" como uma "cooperativa de seguro existencial". E é verdade que você começa a gostar das pessoas por alguma razão específica - o Cláudio, porque ele me relembra do que posso ser, o Caio, porque ele me lembra que se der tudo errado, não será uma catástrofe digna de suicídio ritual japonês, o Yie Chen, porque me lembra de que há pessoas como eu perambulando pelo mundo, a Ralissa, porque ela me lembra que é ok ser uma pessoa realmente estranha, o Bernardo, porque ele me faz ter certeza que é possível ir até o topo tendo as melhores intenções - e inclusive a Aninha Rebel - porque, quando ela aparece, me relembra de que a minha angústia não é única, e que everybody hurts.

Conversar com essas pessoas (às vezes simplesmente estar com essas pessoas) sempre aliviou o mal-estar essencial ao morar em um mundo que não é o seu mundo, mas é um mundo construído espontânea e histericamente por e para ESFJs espontâneos e histéricos.

Claro, por pura lógica, o mero fato de saber que essas pessoas existem seria o suficente para lidar com o mal-estar. O estranho é que mesmo para além do efeito terapêutico sobre a minha inadaptação fundamental, eu continuo gostando delas. O mundo é tão mais rico com elas dentro.

2.3.04

Anima

Para entrar no clima do curso de Filosofia Medieval II (é uma looonga história...), estou ouvindo música sacra.

Ontem foi um dia de obras para órgão de Bach. Hoje, parti parti para o Stabat Mater de Giovanni Pergolese, nas vozes de Mirella Freni e Terenza Berganza, acompanhadas pela orquestra "Scarlatti" de Nápoles regida por Ettore Gracis.

Devo ficar durante algum tempo no Stabat Mater - uma obra surpreendentemente rica - mas quando conseguir sair daqui, partirei para o Réquiem de Fauré.

Contam os cronistas da vida e milagres de Diego Navarro que durante sua gestação, ele assistia aos ensaios do Réquiem de Fauré, devidamente embutido no ventre da mezzo-soprano e mamãe. Mas não creio que tenha voltado a ouvir essa peça em especifico depois de nascer.

Os anacolutenses ficarão informados das segundas impressões de Diego Navarro, aprendiz de feiticeiro y caballero del reino por la gracia de Dios.

28.2.04

Do goats.com



25.2.04

Rádios

Sou um habitué de rádios online de drum-and-bass. Devido à epidemia do MyDoom, a minha rádio favorita (que ainda não aprendeu que Windows é para desktops, não para pequenos servidores, Linux é para pequenos servidores e não para desktops), a Drum'n'Bass TV está funcionando mal, e estes dias tenho ouvido a Jungle Train.

Para os curiosos sobre o gênero, vale a pena experimentar.

22.2.04

So Awkward

É impressionante como estou escrevendo mal. Ritmos erráticos, frases confusas, idéias complicadas apresentadas de forma casual, e inclusive uma primeira pessoa do plural muito mal usada.

Preciso voltar a escrever regularmente. Enquanto isso, I apologize profusely.

21.2.04

Eles entenderam tudo errado

Metade dos críticos de rock chamam o Coldplay de "Radiohead limpo". A outra metade fala de "british sensitive rockers". Ora, onde o Radiohead é irracional (e que não fique a conotação negativa da palavra aqui), Coldplay fala constantemente de uma obsessão irredenta pelo controle.

Veja, pessoas sensíveis permitem-se explorar o acaso. Os dois trechos mais significativos vêm de "Politik" (give me one, 'cause one is best - in confusion, confidence) e "God put a smile" (give me smile and give me grace - and put a smile upon my face), e clamam justamente por um abrigo do acaso, por um mundo mais razoável onde viver seja menos perigoso.

Toda a narrativa do Coldplay fala de pessoas insensíveis (em parte porque racionais como método e destino, e em parte porque auto-centradas, vivendo a parte que importa da sua vida dentro de si mesmas) sendo confrontadas com as suas emoções, com o seu sentir (e aqui acontece uma interessante duplicidade feel/sense) o mundo. Eu acho que é isso o que me atinge com mais força.

Para quem anda acompanhando as minhas aventuras pelo sistema Myers-Briggs, são as aventuras de tipos xNTx explorando suas funções Sx e Fx. Eu acho que alguns críticos de rock ainda não sabem disto aqui: nós não somos personagens com histórias simples e reações simples a histórias de tipos comuns. Nós vivemos vidas, estas sucessões de fatos e sensações incrivelmente complexas, irredutíveis a estruturas narrativas.

Mas claro, "Clocks" fala de quando amamos estar vivos, acordar cada dia, e nos jogarmos no abismo.

17.2.04

15.2.04

Mais pingos nos iis

Não é que eu não poste por falta de idéias. Paradoxalmente, tenho padecido de um excesso de idéias para o blogue, mas estas idéias surgem nos momentos mais inapropriados, quando não posso ou não quero interromper as atividades em curso para explicar em termos verbais mais nítidos aquilo de que quero falar. Por outro lado, as idéias são tantas que não posso me dar ao luxo de digitar todas, e mesmo o processo de escolher as mais anacolúticas entre elas é cansativo e não me inspira entusiasmo.

Quando eu entrar numa fase menos imaginativa, trabalharei com calma cada conceito. On verra on verra.

12.2.04

Set off alarms

Os Narbotic são a minha banda de rock favorita do momento. Strokes meets IMPA meets White Stripes meets ansiedade matemática.

Recomendo muito ouvir "Alarm in the graduate school", disponível para download no site deles

They said, study with the best
or die like the rest
I gave her pieces of my brain
just to pass the test
Y'know I'd never thought
that I'd be learning surgery
for this MaS I'm going all the way
ring the alarm

11.2.04

9.2.04

Nós apoiamos

Get Firefox

4.2.04

Do Diesel Sweeties



Eu estou pensando seriamente em abandonar o meu clássico modus operandi de "deixar o acaso acontecer". Talvez eu deva começar a entrevistar candidatas.

Inscrições para o processo seletivo na caixa de comentários abaixo.

3.2.04

You had chemicals boy

Eu acabo de baixar o remix em dnb ("London Electricity mix") de "Born Slippy" do site oficial dos Underworld. A versão original tinha uma letra fantástica sobre um batidão bate-estaca four-on-four irritante - e este remix corrige isso.

O que posso dizer sobre "Born Slippy"? É uma mistura fascinante de canto de esperança no futuro, meditação sobre a superficialidade da consciência e narrativa perturbadora sobre estados neuroquímicos alterados.

"Born slippy" é a "Blowing in the wind" da nossa era - a cultura pop que passa do tomismo a Spinoza, do canto de liberdade e da responsabilidade ética que da liberdade advém ao questionamento mais propriamente filosófico sobre as motivações profundas por trás das ações que julgamos livres.

Em paralelo a isso, "Born Slippy" canta o devir. É uma boa época para se viver, quando estes ingleses que escrevem música para a pista de dança fazem o melhor comentário explicativo sobre Bergson que existe em lingua laica.

Convertido em dnb, que em si é o culto da velocidade pura como método de análise, as três faces do fluxo de consciência coletiva de "Born Slippy" apenas ganham camadas de significado. O sentido spinoziano da aparência contraditória de liberdade, em particular, torna-se concreto e físico: as nossas ações acontecem tão rápido que se tornam efeito antes de que consigamos querê-las.

É a inteligência coletiva chegando a uma maturidade tal que a faz redescobrir os projetos filosóficos de alguns homens particularmente lúcidos que se destacaram para o seu tempo. Paul Virilio ficaria orgulhoso.

2.2.04

Dear Prudence

Aninha Rebel, minha anti-semitinha favorita, mande-me uma mensagem pelo ICQ. Deletei você por erro, e não consigo mais achar o UIN.

Eu culpo o Santeiro

A data do leilão do prédio onde está instalado o IMPA está marcada para o dia 12 de fevereiro. Talvez a única instituição de pesquisa séria deste país, o IMPA acabou no lado mais fraco da corda de uma disputa judicial entre alguns pesquisadores do CNPq e o governo. Condenado pela justiça a acertar suas contas, o CNPq vai vender o prédio.

A nota de Elio Gáspari que nos relata isso conclui culpando, doce e irônicamente, a meta de superávit primário pelo estado lamentável a que a situação chegou. Talvez sem o querer, Elio Gaspari se torna porta-voz da mais tola das heterodoxias, aquela cujo corpo teórico se compõe de pequenas observações sarcásticas sobre casos anedóticos.

Sim, o superávit primário leva a uma corrida de cortes, e a informação assimétrica cuida do resto: do ponto de vista do homem que tem que equilibrar as contas, um instituto de pesquisa em matemática e uma produtora de vídeos acochambrada dentro de uma universidade federal são a mesma coisa.

Mas o ajuste fiscal é uma necessidade imperiosa, e a circunstância de ter que fazer estes superávits dolorosos é resultado de décadas da mais pura fuzarca. É errado culpar o superávit primário pelo cenário kafkiano de vender o IMPA.

Eu culpo Sérgio Santeiro, o imortal rei-montanha do IACS/UFF.

30.1.04

Gauss-Seidel



% Parametros: A, b, X inicial, convergencia, tolerancia
function x = gauss_seidel(A, b, xi, conv, tol)
tic
ox = xi;
tx = ones(1,length(xi));
k=0;
while max(abs(A*tx' - b)) > tol
sprintf('Iteracao %d... variacao = %0.5g',k, abs(max(ox - tx) / max(tx)))
sprintf('Maoir erro = %15.5f', max(abs(A*tx' - b)))
ox=tx;
for i=1:length(b)
soma1=0;
for j=1:i-1
soma1=soma1 + A(i,j)*tx(j);
end
soma2=0;
for j=i+1:length(b)
soma2=A(i,j)*ox(j);
end
tx(i) = (b(i) - soma1 - soma2) / A(i,i);
end
k=k+1;
if abs(max(ox - tx) / max(tx)) > conv
disp('Algoritmo nao converge!');
break
end
if max(abs(A*tx' - b)) > tol
if abs(max(ox - tx) / max(tx)) == 0
disp('Algoritmo travou!');
break
end
end

end
if max(abs(A*tx' - b)) < tol
sprintf('Resolvido na iteracao %d', k)
end
toc
erro = (A* tx' - b)'
x = tx;

x_inversao = (inv(A)*b)'

29.1.04

On verra on verra

Eu estou adotando o sistema do García: o velho sistema de comentários associados a cada post foi substituído por um sistema bem mais estável de guestbook central. Vai ser melhor pra todo mundo assim.

Pessoas, estréiem o meu guestbook. Façam propaganda dos seus blogues, escrevam-me cartas de amor, qualquer coisa. Heiter, isso também vale pra você!

27.1.04

A hipótese Lula


Eu acho que a essa altura já ficou claro que Lula não existe. Lula é uma imagem, um simulacro, uma narrativa, uma hipótese. Eu estava trabalhando com a explicação de que fosse uma imagem gerada por computação gráfica, mas esta boa amiga petista minha me assegura tê-lo visto e tocado. Mas agora tenho uma nova teoria lulogenética

Em um apartamento paulista, dois intelectuais uspianos de esquerda, um mais "organicista" e um mais "vanguardista" entram num debate sobre a possibilidade de um líder realmente popular. O intelectual "organicista" propõe uma aposta-Pigmalião: ele pode transformar um operário num grande líder político.

Depois de um acidente no torno mecânico que o mutilou, o jovem Luis Inácio da Silva recebeu o direito a uma aposentadoria por invalidez, fato que chega à atenção de nosso intelectual organicista. O jovem Luis Inácio é um candidato ideal, visto que não teme mais a reação do burguês. E o resto é história: constrói-se a persona Lula sobre a carcaça conveniente do operário Luis Inácio.

Pois bem: a hipótese Lula é que o intelectual organicista era FHC. Finda a transição de governo, FHC e seu oponente ultrapassado estão dando gargalhadas bebendo champanhe, enquanto a velha equipeconômica pensa - "e pensar que vencemos o ciclo inflacionário brasileiro por causa de uma aposta!".



23.1.04

Como ser solteiro

A guitarra é uma amante ciumenta.

Ela se ressente quando você olha para outros instrumentos, cobra constantemente a sua atenção, e retribui o gelo com gelo: às vezes, você abandona sua guitarra por um dia, e ela te abandona por uma semana. Mas às vezes a relação chega a uma estagnação, e um precisa deixar de ver o outro por algum tempo, até para poder sentir saudades.

Eu estava apagado como uma lâmpada queimada. Guardei os equipamentos todos por três dias, e só os remontei hoje. E ela voltou, a minha doce amada, dócil e colaborativa.

22.1.04

Zeitgeist

Badger badger badger badger badger badger mushroom mushroom badger badger badger badger badger mushroom mushroom.

12.1.04

Poema de uma linha

Os corpos, estas pobres gelecas de papel e queijo cheddar.

16.12.03

Guia Anacoluto da Indústria Pornográfica Brasileira

O início das férias me trouxe uma descoberta tardia: a incrível extensão da indústria pornô-soft na Internet brasileira. Pareceria que todo mundo que ainda tenta sobreviver como empresa de mídia na net tem a sua versão, começando pelo UOL e o Terra, tipicos provedores de conteúdo", passando pelo iG, que se vende meramente como ISP, e chegando à própria Globo.

É incrível, mas o "Paparazzo" da Globo é o mais vulgar da turma, a começar pelo nome. É uma pena, visto que quase por definição eles dispõem das mulheres mais interessantes de se ver seminuas - justamente porque é a própria Globo quem define quem é high-profile no mundo brainless brasileiro. Ora, é preciso muito anti-talento pra conseguir fazer um ensaio vulgar com a Daniela Cicarelli. Às vezes, parece que a Globo tem o tão falado "toque de Midas ao contrário", transformando tudo o que toca em crud.



Surpreendeu a qualidade das meninas que o "Morango" conseguiu cooptar. O iG não têm muito impacto como empresa de mídia, e eu acharia que eles têm pouco orçamento a gastar com o seu departamento de pornografia soft. Mas parece que eles apenas investiram em modelos o que economizaram em fotógrafos. Nunca, nunca vou entender o que leva alguém a pensar que é interessante ver uma menina com as curvas desta tal de Alexandra Denardini com penteado de criança e luvas de borracha. Quer dizer, não basta você saber operar a lente de uma câmera para dizer que é fotógrafo, e este é o testemunho mais vivo disso.



O equivalente do UOL, que repete as metáforas gastronômicas ao se chamar "Chantili - e fico feliz por aprender como se escreve o aportuguesamento dessa palavra. Eles partem de um discurso agressivo, que inclui reportagens sobre sexo na front page, mas o ensaio é a própria definição de soft porn - essencialmente apelativo mas deixando tudo para a imaginação. A modelo (e eles não disponibilizam os ensaios anteriores, de modo que só posso discutir o corrente) é comuníssima, e não sei o que a faz pensar que deveria seguir a carreira. As escolhas do fotógrafo parecem tipicamente de um estudante de algum talento que acabou seu primeiro curso de seis meses de fotografia. É tudo em preto e branco, há um uso relativamente consciente de luzes e sombras, mas é tudo muito básico, muito óbvio, muito direto do livro. Fica a sensação do estudante de música que acabou de descobrir os acordes com nonas, e passa o tempo a compor canções de estrutura previsível, mas acordes com agregadas.



Francamente, o único desses sites que é relativamente aceitável é o "The Girl" do Terra. E enquanto eles não têm precisamente um Alexander Hamilton na equipe de fotógrafos, parece haver a proposta por parte da direção executiva - das pessoas que liberam o dinheiro - de fazer um bom trabalho. Os fotógrafos são competentes e têm alguma personalidade, as modelos em geral têm algum brilho além dos mililitros, e embora seja preciso fazer algum garimpo para encontrar algo parecido com boa fotografia, o abismo entre este projeto e a competição é tal que é preciso elegê-los o Melhor Site Pornô-soft Financiado Por Uma Grande Empresa de Mídia. A direção do Terra pode entrar em contato comigo para receber o seu Prêmio Patinho de Borracha.

Uma dica: os melhores ensaios - do ponto de vista da fotografia - são os mais antigos. Os novos - exemplificados pela primeira foto da esquerda para a direita - estão ficando mais fortes, e a equipe parece não ter aprendido direito a lidar com
o novo foco do site. Alguns dos primeiros ensaios misturam imagens em preto e branco e a cores do mesmo cenário, o que é realmente interessante no conjunto. O meu rápido garimpo não pretende, logicamente, mostrar as melhores, mas uma seleção típica do conteúdo do site.







Rá, rá, rá. Dessa vez surpreendi vocês, não foi?

15.12.03



the rusty chains of prison moon
are shattered by the sun
i walk outside the pilgrim's door
the tournament's begun
the yellow jester does not play
but gently pulls the strings
a lullaby in an ancient tongue
for the court of the crimson king..


10.12.03

Fahrenheit 451

Se algum dos anacolutenses ainda é a favor do estatuto do desarmamento, deve ler isto.

29.11.03

Pingos nos ii

O que realmente incomoda em Lula é a sua forma de sérgiobuarquedehollandamente personalizar relações que deveriam ser inteiramente abstratas. Um Presidente da República pode torcer pela seleção brasileira, mas não pode ter um time.

Só o seu corintianismo assumido seria assunto para longas diatribes sobre o que realmente significa ser um líder nacional, mas na verdade não tem importância, relativa às coisas quer estão sendo feitas. Só para citar duas coisinhas:

  1. É chato pra cacete que um homem alçado a capitão do barco ainda não saiba o que é insider trading. Em apenas dez meses, tivemos dois episódios muito sérios em que o presidente simplesmente deu informação privilegiada a um grupo seleto de investidores antes de que o público em massa soubesse. Com muito menos evidências de um crime semelhante, Chicão Lopes andou na prancha.
  2. A tentativa de dissolução do congresso logo no início do governo. As coisas não foram apresentadas dessa forma, mas o PT nomeou (como no bom tempo dos senadores biônicos) uma assembléia de caráter deliberativo baseado numa idéia difusa de representatividade dos grupos de interesse e de simpatias pessoais. É claro que a representante do povo-do-cinema foi a Lucélia Santos, e não o Diogo Mainardi. Mas a consciência política neste país não está de todo em coma, e houve grita generalizada, o que fez com que o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social seja rebaixado a consultivo, e finalmente silenciosamente varrido para debaixo do tapete.


Ah, a política econômica? Bem, eu tenho a impressão de que cometeram-se erros quantitativos - embora em termos conceituais isso seja mesmo a única coisa que o governo podia fazer. No fundo, o governo só pode executar políticas restritivas de demanda ou políticas expansionistas de demanda. Vocês vêem, a teoria política tradicional propõe que governos tendem a pôr em prática políticas restritivas durante os dois primeiros anos de governo, para poder executar políticas expansionistas nos dois últimos anos e eleger-se em época de vacas gordas. Há quem diga que Lula está abrindo a torneira porque pretende conseguir muitas prefeituras para o seu partido, mas pode ser que a inflação volte logo no fim de seu mandato, e ele não consiga eleger o seu sucessor. Let´s just hope.

20.11.03

Conhecimento nunca é demais, parte I

Este é um estudo sobre a história e o desenvolvimento dos calçados através da idade média, até o século XVI.

18.11.03

Entropia cultural

Aquela coleção de clássicos "econômicos" (leia-se, edições baratas) da editora Claret, que andou publicando coisas do Gramsci e até mesmo o Livro Vermelho de Mao, agora inclui dois livrinhos de Ralph Waldo Emerson. Com bandeira americana na capa e tudo :)

Agora só falta alguém lembrar de fazer uma réplica àquela coleção de "Rebeldes Brasileiros" da Caros Amigos. Ela bem que merecia ser mais conhecida pelos nossos estudantezinhos.

14.11.03

I will hold the tea bag



















Eu estou chegando a uma teoria: as pessoas não entendem direito as minhas diatribes sobre música por causa do incomensurável abismo entre o fenômeno da música popular num país como o Brasil e num país como a Inglaterra ou a Holanda. Em sociedades assim, coisas surpreendentemente sofisticadas se tornam bastante populares, enquanto no Brasil, coisas incrivelmente idiotas são alçadas à categoria de música popular "culta".

Precisamos abrir o mercado musical à competição internacional - dentro da cabeça das pessoas! Gente exposta diariamente a The Sea and Cake, Bark Psychosis ou Univers Zero teriam nojo da Maria Rita - e as gravadoras seriam forçadas a lançar bons artistas. Às vezes me parece que coisas como a Kelly Key ou os funkeiros do morro são lançados como sparrings, bois de piranha - comparados com _aquilo_, os Tribalistas ou a Maria Rita ou o novo disco da Olivia Hime valem alguma coisa.

E não ouse reclamar, ou as gravadoras voltam a descobrir um Buchecha qualquer ali na padaria.


31.10.03

Eu errei


ao assumir que os cortes de impostos de Bush Jr. eram uma repetição da reaganomics que mais de uma vez havia enfiado o país na jaca.

O PIB americano cresceu 7% no último período. E isso é inequívoco. Dado isso, arriba Greenspan y arriba Schwarzenegger. Nós bem que podíamos tomar umas lições com esse pessoal.

26.10.03

Neuroquímica I

Pessoas gordas são viciadas em coisas doces (em particular o chocolate) que estimulam a produção de dopamina. Não é muito diferente do que faz o álcool.

Pesoas malhadas são viciadas em endorfina, que é produzida pelo organismo quando se atinge um certo grau de esforço físico. Não é muito diferente do que faz a heroína.

Eu olho para homens malhados, musculosos, ou meninas magrinhas, que nitidamente passam horas na academia para ter esse corpinho, como olho para viciados em maconha: casos tristes em que a sensação física se sobrepõe ao espírito humano.

19.10.03

Estratégias Vencedoras


Não é o tipo de coisa que costuma aparecer no Anacoluto, mas parece que o pessoal do FreeBSD, um sistema operacional padrão Unix gratuito melhor que o Linux resolveu contratar os publicitários brasileiros que fazem aquelas campanhas de cerveja.

O pior é que deve funcionar. Nada contra loiras sorridentes em trajes menores, mas eu gostaria de que tivessem escrito "really" certo.

16.10.03



"Blue", do Bark Psychosis, é o cumprimento de uma promessa que vinha sendo feita havia anos por bandas como New Order, Joy Division e Talk Talk. Nada, em toda a música dos anos 80, tem este grau de conteúdo emocional. É acachapante. E o que dizer da coda fake-tropical que termina a faixa?

Talvez involuntariamente, o final de "Blue" é uma refutação da música brasileira.

Parte do problema da música brasileira é que ela nunca conseguiu se sentir segura estéticamente para ser, em si mesma, e sempre se afirmou na sua natureza de projeto. Ainda estranha alguns a possibilidade de alguém poder gostar de música por causa da música. Outro dia, me perguntaram de onde são os Bark Psychosis. E eu não sei.

As pessoas costumam vincular organicidade a emotividade, e pode ser uma surpresa a força emocional que a sintética pura e os vocais sussurrados do Bark Psychosis podem ter. A única linha de guitarra, que antecede e introduz o piano tropical a que eu me referia, diz mais sobre a extensão e a complexidade das emoções de pessoas de verdade do que décadas de Chico Buarque e Elis Regina.

Bark Psychosis personifica até o fim a idéia que só recebeu nome com os chatos australianos do Silverchair: emotion sickness. Você sabe quando você tem tantas emoções misturadas e contraditórias em relação a uma coisa só que se sente fisicamente mal?

Qualquer um que já botou a cabeça pra fora da caixa sabe do que eu estou falando. Qualquer um que vive seus relacionamentos para além da pragmática do sexo e da companhia do sábado à noite e do medo de ficar sozinho sabe do que eu estou falando. "Sentimentos" são kits pré-embalados de emoções que as pessoas se permitem revelar porque têm esferas semânticas bem definidas ao seu redor. Amor romântico significa sexo e cinema no sábado à noite; amizade significa telefonemas depois daquela prova difícil e simpatia nas dificuldades. Relações entre colegas de trabalho são objetivas, exceto no chopinho de sexta à noite. O cliente sempre tem razão, especialmente numa loja de sapatos.

Só que as coisas são mais complicadas do que isso, e algumas pessoas mais inteligentes sabem disso. Gosto de pensar que o fato de que mais de 80% das visitas ao Anacoluto vêm de universidades significa que tenho leitores inteligentes. E os meus leitores inteligentes sabem que o mundo de Dawson's Creek não existe. É disso que o Bark Psychosis está falando: da vida fora da caixa.

15.10.03

Eu acentuo advérbios,

quando vêm de adjetivos acentuados. E espero que os críticos vão embora para Pasárgada, onde os seus diplomas da Estácio talvez valham a cartolina em que foram impressos.

24.9.03

Rádio

A partir de hoje, transmitirei a Rádio Anacoluto todos os dias das 19 às 20 horas, horário de Brasília. A sessão poderá ser sintonizada por qualquer um que seja capaz de tocar mp3's. Basta abrir http://anacoluto.no-ip.info:8000/ no seu programa de mp3 ou clicar aqui.

A programação será variada e eclética - portanto, mesmo se você não gostar do que está ouvindo, deve apenas esperar dois ou três minutos, que coisas radicalmente diferentes virão. Hoje, pretendo tocar um pouco de Bark Psychosis e Laibach (já que os mencionei num post recente), além de um pouco de jazz-rock sueco. Pedidos podem ser enviados ao meu ICQ: 3189502.

23.9.03

Sinais

Se houver uma correlação entre o cenário musical e o panorama econômico, teremos um novo 1979 em breve.

Grandes Esperanças

Novo Laibach e Novo Bark Psychosis, no mesmo mês.

Mas é preciso esperar. Como fazer melhor que "N.A.T.O" e "Hex"?

22.9.03

Ritmo

Quem ainda acha que as coisas da Nação Zumbi ou da Timbalada tem algum mérito, deve ouvir a versão ao vivo de "For nobody" do Gentle Giant. Começa com um sexteto de percussão executado pelas mesmas seis pessoas que tocam órgãopianoxilofoneguitarrasbaixosviolinosviolasvioloncelostrompetessaxofonesviolõesflautasdocesflautastransversasetc.

É de perder o fôlego.

E que não me venham falar de Maria Rita. Maria Rita é coisa de colunista de caderno de cultura.

19.9.03

As palavras

Alma, bergantim, choque, dasein, errante,feitura, gestalt, hiato, irradiação, janela, knock-out, lanterna, metástase, nervura, oblivion, pão&circo, questionamento, rizoma, santidade, tempo, unidade, velocidade, wanton, xilofone, zeitgeist.

16.9.03

Cinqüenta anos em cinco

Uma fatia aleatória de cultura Internet para aqueles que chegaram tarde.

15.9.03

O mistério da MPB

O que eu nunca entenderei é o porquê de tanta gente - em particular gente em outros aspectos esclarecida - que acha que Elizete Cardoso, Aldir Blanc, Elis Regina, Milton Nascimento ou Tim Maia têm alguma relevância whatsoever. Principalmente na era que produziu John Coltrane, John McLaughlin, Ravi Shankar, Thurston Moore, Glenn Branca, Trent Reznor e Tom Jenkinson. É uma lista em que predominam os estrangeiros, e há um númeor de razões para isso - da estatística (e mais de 95% das pessoas do mundo são estrangeiros) ao clima cultural mediocregênico em que nos desenvolvemos. Por último, há a dificuldade em se descobrir que existem artistas como Egberto Gismonti, Arrigo Barnabé, Renato Consorte, Airto Moreira, Arto Lindsay e tantos outros. Quando as rádios querem dar uma de cultas, jogam um Chico Buarque da fase ruim.

It's a sad state of affairs. E a maior parcela da culpa é da classe média.

11.9.03



8.9.03

Saindo da sombra

Agora você pode conversar com Diego "Anacoluto" Navarro através do ICQ. O número é 3189502.

6.9.03

Saudades de Fernando Henrique



Não, não é nem a recessão. As causas da recessão nunca são certas, mesmo quando estamos armados da melhor teoria econômica. Ainda sou dos que opinam que o governo anda improvisando na condução da quimioterapia da estabilização, mas não há heterodoxia completamente equivocada. Sim, a vulnerabilidade externa é um problema; sim, todo programa de estabilização inflacionária implica em um choque recessivo de demanda; sim, improvisou-se na combinação explosiva de política fiscal expansiva e tributação para tapar os gastos que a oposição não deixou que se cortasse - levando a dívida pública à alarmante situação em que está. A questão é que tudo isso são pedaços soltos de teoria sujeitos a uma interpretação leiga. E, sim, uma política recessiva pode ser razoável dadas certas circunstâncias, em que pese a carga negativa da palavra. Tudo é uma questão de custo-benefício. Valia a pena arcar com a vulnerabilidade externa, o crescimento baixo e o peso morto do Estado? Ah, isso é uma discussão tão grande...

Não, não é nem a recessão. É o ar que se respira.

São as pequenas coisas. É o populismo barato dos showzinhos de música - mesmo quando envolvem os maiores músicos deste país, como aconteceu no recente evento com Nelson Freire em prol do fomezero. É a exortação pernambucana a provar a macheza engravidando as que vierem pelo caminho. É o exílio da técnica e a promiscuidade clientelista que toma conta de cada aresta da máquina estatal. Não é apenas que a quimioterapia econômica esteja sendo levada adiante por médicos e engenheiros - são as indicações políticas para o INCA e a Câmara Técnica de Medicamentos, que estão provocando renúncias em massa. É o Conselhão de Desenvolvimento Econômico e Social, que quase virou parlamento paralelo eleito pelo presidente. É a personalização das relações políticas. É o presidente da Petrobrás anunciando a descoberta de gás em Santos para um grupo seleto de investidores. Sim, isso aconteceu. E Madam Roussef anda a minimizar esse inacreditável episódio de insider trading patrocinado pelo Estado.

Em suma, é a era Sarney de volta. E não se enganem, Sarney é a grande inspiração de Lula em quase tudo, das câmaras setoriais ao populismo em torno da palavra "social". É a desprofissionalização do Estado, a reversão de um processo que estava transformando em espírito a forma como se faz política chez nous.

Com toda a turbulência que marcou o período, Fernando Henrique deixou a nítida sensação de uma era em que se governou tentando infiltrar a técnica e a razão num espaço tão típicamente marcado pelo fisologismo mais barato e mais imoral. E nisso, fica a sensação de que FHC é maior do que o próprio PSDB, chegando a validar o projeto tucano pela força de seu próprio mito. Fico com a sensação de que o apoio explícito de FHC a José Serra teria mudado muita coisa.

Muito se regurgia sobre a força de Lula, o Sarney Reloaded, como líder carismático, e acho que se subestima a força de FHC. Adolescente, eu fui de esquerda - freqüentemente da marca mais radical, sem que nunca tenha chegado a mim o apelo de Lula ou a crítica fácil a FHC. No máximo, cometiam-se erros de cálculo, nas privatizações e na abertura comerical - que, na minha imaturidade eram o mal encarnado - sem que isso significasse que FHC não fosse o rei-filósofo que terminaria por fazer o que fosse melhor dadas as circunstâncias. Talvez o erro de FHC tenha sido ser sutil, sofisticado. Talvez a sociologia e o piano só façam falta a nós, pobres adeptos deste hedonismo intelectual vagamente proustiano.

Talvez os candidatos a presidente pudessem ser submetidos a um exame de piano antes de serem validados pelo TSE.

Tenho saudades do professor Cardoso toda vez que Luís Inácio Sarney Reloaded da Silva abre a boca para dizer que "nunca antes neste país" se fez alguma coisa. Tenho saudades do professor Cardoso quase o tempo inteiro.

2.9.03

O mundo vai ser tomado pelas baratas. Merde.

29.8.03

Conjux


É do tipo de coisa que você detesta à primeira vista, antes mesmo de ouvir. Não tem como funcionar: Tom Morello e Zack de la Rocha faziam hip-hop político, pontuado por guitarras, enquanto que Chris Cornell e amigos faziam música psicodélica retrô. Substituir a paranóia e o vitríolo do RATM pelo tom whiny e introspectivo de Cornell é ainda uma idéia menos inadequada do que substituir a relativa expertise de Matt Cameron, Ben Shepherd e Kim Thayill pelas incríveis palhaçadas de Tom Morello, que parece achar que repetir uma única nota por vários minutos, usando pedais de efeitos, é o mesmo que tocar um solo.

O pior é que o que os Audioslave fazem é terrívelmente reacionário - especialmente no contraste com os beats hipervelozes para uma época hiperveloz das coisas da Weltherrschaft, que lançou o disco sobre a guerra que comentei no último post. O clipe de "Show me how to live" explora a surradíssima fórmula da road freedom como um veterano marine, ao ver a oposição à guerra do Vietnã, exploraria as imagens patrióticas da bandeira, do cachorro-quente e do beisebol. Talvez involuntariamente, Chris Cornell assume o papel de um Pat Boone na era da dromologia de Paul Virilio, o que dá a todo o disco um sabor de ciclamato - apesar de todas as boas intenções, repulsivo.

Mas como não gostar de algo cantado pelo Chris Cornell?

28.8.03

Às vezes, as pessoas fazem as coisas mais fantásticas com os objetivos mais tolos. Este EP, disponível para download gratuito legal, é um grande exemplo.

Não é nem um drill-and-bass esperto como as coisas do Squarepusher; é uma impressionante explosão de energia que dura trinta minutos. Vale a pena.

27.8.03

Real World

As trajetórias simétricas e equivalentes de Jewel e Alanis são um exposé involuntário de como funciona a indústria musical. E ambas fazem o seu trabalho muito bem. Não ouvi o álbum de disco diva que Alanis tenta esconder para proteger a sua retórica de "tenha cabelo de cavalo e ande nua por cidades geladas", mas a priori "You oughta know" ou "Head over heels" são tão convincentes quanto qualquer coisa da Cat Power ou da Patti Smith. A Jewel me surpreendeu. Talvez haja uma mudança forte de rumos em relação ao autenticismo que dominou o rock (em oposição à eletrônica, muito mais esperta) na primeira metade dos anos 90, ou talvez o mercado de cantoras sinceras e frágeis esteja superlotado ao ponto de se tornar notória a diferença entre cantoras sinceras e Madonnas bem emabaladas.

O crivo de Eratóstenes são os solos de guitarra. Se a música tiver mais tempo de refrão do que de solos, laisse tomber.

20.8.03

Uma pequena paráfrase


I don't know just where I'm going
But I'm gonna try for the kingdom, if I can
'Cause it makes me feel like I'm a man
When I put black powder in hot milk
And I'll tell ya, things aren't quite the same
When I'm rushing on my run
And I feel just like Jesus' son
And I guess that I just don't know
And I guess that I just don't know
I have made the big decision
I'm gonna try to speed up my life
'Cause when the blood begins to flow
When it shoots up the dropper's neck
When I'm closing in on death
And you can't help me now, you guys
And all you differentials with all your limits
You can all go take a walk
And I guess that I just don't know
And I guess that I just don't know
I wish that I was born a thousand years ago
I wish that I'd sail the darkened seas
On a great big clipper ship
Going from this land here to that
In a sailor's suit and cap
Away from the big city
Where a man can not be free
Of all of the evils of this town
And of himself, and those around
Oh, and I guess that I just don't know
Oh, and I guess that I just don't know

Caffeine
be the death of me
Caffeine
it's my wife
and it's my life

Because a mainer to my brain
Leads to a center in my head
And then I'm better off and dead
Because when the smack begins to flow
I really don't care anymore
About all the health freaks in this town
And all the physicians makin' crazy sounds
And everybody puttin' everybody else down
And all the scrap paper piled up in mounds
'Cause when the smack begins to flow
Then I really don't care anymore
Ah, when the caffeine is in my blood
And that blood is in my head
Then thank God that I'm as good as dead
Then thank your God that I'm not aware
And thank God that I just don't care
And I guess I just don't know
And I guess I just don't know

13.8.03

Browser

Troquei o MSIE, que andava aprontando, pelo Mozilla Firebird.

Lembram da guerra dos browsers? [Ok, nem todo mundo era um geek viciado em internet em 1997]. Quer dizer, depois de certo ponto, a Netscape tinha se tornado um mamute.

Uma das últimas coisas que o Marc Andressen fez como dono da Netscape, antes da venda para a AOL, foi liberal o código fonte do Navigator.

Lembro ainda de baixar e compilar uma das primeiras versões do Mozilla - originalmente o nome extra-oficial do Navigator, mas que se tornaria o nome oficial do novo browser - mas a coisa simplesmente não funcionava direito back then.

O Mozilla continua existindo. Dizem que funciona, e que está virando um mamute. Mas eles fizeram uma versão menor, redimensionável - o Firebird.

O conceito é bastante esperto: em vez de afogar o browser em recursos, você baixa uma instalação padrão bare-bones e vai instalando os recursos adicionais que forem interessantes.

E sim, eles conseguiram trazer alguns conceitos novos à cansada arena dos browsers. Vale a pena experimentar.

10.8.03

De ratos e homens

Eu não sei qual é a surpresa em ver Roberto Marinho-latria que tomou conta da imprensa. Não é somente o risco moral de não bajular o chefe; há também um forte elemento de gratidão por parte de muita gente que teve o seu big break na corporação Globo.

E apesar do perpétuo fluxo de acusações perturbadoras sobre a gênese e ascensão da corporação Globo - e do inegável caráter cartelizador de seu monopólio vertical sobre o audiovisual de ficção - Roberto Marinho foi um empreendedor. E este país tem uma carência terrível de empreendedores; as pessoas querem emprego, de preferência no governo, com estabilidade.

É, afinal, o homem que fundou uma das poucas grandes empresas que este país tem - aos 60 anos - e que emprega artistas. É por causa do salário das novelas da Globo que atores podem fazer "Rei Lear" ou "Hamlet".

E no fundo, eu acho que ele acumulou tanto poder em grande parte por falta de concorrência em determinado ponto crítico da construção de seu império. É certo que nenhuma sociedade capitalista desenvolvida deveria ter os entraves à livre concorrência que a Globo representa. Mas this is what you want, this is what you get.

As pessoas não querem emprego para todos, sem ter que correr riscos?

30.7.03

Anticomunista, eu?


(Ei, meninos. O link vale; só me mudem para a seção de "blogs".)

26.7.03

A quantidade de comentários que são deixados é completamente incompatível com as estatísticas do Nedstat.

Ei. Pessoas. Deixem comentários.

23.7.03

This is revolution

Muitas das disciplinas da soft-science que surgiu em torno da desconstrução e da psicanálise no século passado são jogos sem fim. O próprio relativismo é um jogo sem fim, fato apontado por gerações de cínicos: afinal, mesmo a proposição "tudo é relativo" deveria ser relativa, certo?

A pragmática - subdisciplina da lingüística - pode ser um jogo-sem-fim de conseqüências interessantes. O exemplo clássico de análise pragmática de uma fala é o "eu te amo". Aparentemente, para os lingüistas da pragmática, uma afirmação como essa traz, implícita, uma indagação acerca da recíproca: você diz "eu te amo" para saber se é correspondido.

Nessa linha de análise, o que está incluído no pacote quando eu resolvo fazer uma defesa do ethos do substância-acima-de-estilo?

Eu consigo ver duas coisas. A primeira é uma analogia tola. A forma de apresentar o problema ajuda, dado o nosso centenário treinamento para a indução a qualquer custo: estilo frilly, substância frilly. A outra é uma dicotomia. Nem sempre o estilo sabotará a substância; faz parte do rol de utilidades do estilo a função de mimetizar o efeito de uma substância sólida e qualitativa.

Nesse caso, o discurso da substância-acima-do-estilo se adaptará: um estilo adequado será um sucedâneo de substância mais fácil de obter, mas de muito menor qualidade. Desta hierarquia, emerge o idealismo quixotesco: apesar de ser mais fácil, opto por priorizar a substância. Do quixotesco, surge o heroísmo: priorizarei a substância desprezando o estilo. E daqui, a pura arrogância: a minha substância é tão boa que não preciso de um estilo atraente.

Na verdade, eu mudei o template porque queria mais espaço. Fiquei sériamente tentado a sair com um discurso de substância-acima-de-estilo que reaproveitasse a contingência ruim de um template feito pela metade, que será acertado aos poucos e a transformasse em ethos. Por quanto tempo eu conseguiria levar adiante uma farsa assim?

Não vale a pena. Os meus leitores são mais espertos que isso.

21.7.03

Tom Kriss



17.7.03

Baixo

Estou com um baixo elétrico emprestado. Vocês sabiam que o braço do baixo tem duas oitavas?

A minha velha teoria de que qualquer guitarrista toca baixo sobreviveu. O instrumento tem algumas dificuldades mecânicas (o braço é maior, as cordas mais afastadas), mas a afinação é a mesma das quatro cordas mais graves da guitarra, e as cordas oferecem muito mais sustain mesmo sem nenhum tipo de distorção - o que mais que compensa a falta de uma palhetada alternada na mão direita.

Algo inteiramente distinto é ter idéias de baixo. O guitarrista de rock usualmente é treinado para preencher espaço: o tema recorrente nos grandes solistas de guitarra é como a intensidade nunca cai. Por outro lado, o baixo faz das notas que não está tocando sua matéria-prima básica. Requer alguma sutileza, algum feeling. Requer também uma certa sintonia fina com a bateria.

Mas pelo geral, é um instrumento mais fácil. Enquanto eu talvez nunca seja um bom guitarrista, posso aprender a ser um ótimo baixista em mais uns dois meses. Vale a pena? A tentação é grande - afinal, as exigências que se fazem de um guitarrista são irracionalmente mais altas do que as sobre qualquer outro instrumentista. Houve um Jaco Pastorius (roughly, um McLaughlin do baixo), mas não houve Hendrix, Howe, Van Halen, Fripp, Holdsworth, Buckethead. E puxa, há guitarristas impressionantes em cada esquina.

Um mundo menos competitivo. É tentador. Talvez, dadas circunstâncias apenas um pouco diferentes, eu tivesse sido um matemático baixista, e não um economista guitarrista. Em todo caso, continuo à cata de um baterista.

11.7.03

Fênix

Anacoluto o que gosto, e gosto do que anacoluto.

Em certo ponto de elevada paranóia, senti que o Anacoluto podia estar se tornando uma liability, o registro indelével de um pensamento polêmico, políticamente incorreto e um tanto inflexível. Tentei fazer presente a natureza transitória e contingente do que faço. No fim, achei que contribuía mais falando de coisas sérias. E comecei o Livros, que nunca realmente decolou. Leio pelo menos um livro por semana como parte da minha dieta civilizatória, mas resenhar é difícil, e o calendário me engoliu como uma baleia engole um boneco de madeira.

Escrever é um hábito; deixar o Anacoluto de lado por uns tempos produziu a rápida ferrugem por que passa um músico quando deixa o instrumento. Os posts são sempre escritos de uma vez só, de forma muito rápida e sem olhar para trás, e sinto agora que o texto que sai dos meus dedos muito mais pobre e clumsy do que ele já chegou a sair em bons tempos. Não ajuda que os principais temas de atualidade tenham se tornado significativamente mais complexos do que os que aconteciam em março/abril.

Mas preciso escrever. Talvez a solução seja passar ao largo da política, o que me conferirá o duplo alívio da rarefação de opiniões potencialmente comprometedoras e do afastamento da espada de Dâmocles do simplismo pasteleiro. Sei que sou qualquer coisa parecida com um liberal, e não acredito na solução revolucionária; acredito em contratos firmados com consentimento informado de duas partes. Acredito na viabilidade do capitalismo como modelo de desenvolvimento justo e proporcionador de um ambiente excitante de realização pessoal. E por último, talvez ultrapassando um pouco as fronteiras usuais do blogue, acredito que em algum lugar há alguém - que ainda vou conhecer - que vai ter o encaixe certo do Lego.

Acho que é mais ou menos isso. O Livros continuará vivo. Escreverei mais. Tenho poucas certezas. Gosto cada vez mais de economia e de finanças, e tenho minha cota de habilidade conceitual abstrata que podem ser bem canalizadas. Gosto de música como há quem goste de praia, cerveja e pornografia soft. E quero escrever, escrever, escrever, escrever.

7.7.03

Alvíssaras!

O Anacoluto está de volta. Agora com mais brilhância, crocância e refrescância.

26.5.03

AA

Meu nome é Diego Navarro, e sou viciado em açúcar.

Em certo ponto, tive uma mudança radical de estilo de vida - tornei-me sedentário, e isso aos poucos está fazendo com que se acumule uma barriga detestável. Não estou gordo ainda, mind you, mas achei que era hora de fazer alguma coisa antes de que sejam necessários esforços grandes para reverter o processo.

Não sendo adepto do exercício físico, decidi comer menos e reduzir drásticamente a quantidade de açúcar nas minhas bebidas. Passei o fim de semana inteiro bebendo água. O resultado foi imediato: depressão. Nunca achei que tivesse uma dependência química tão forte do açúcar.

Da última vez que me senti assim, foi a "ressaca" de uma overdose de cafeína para uma maratona de provas. Na verdade, acho que foi uma síndrome de abstinência - como agora. Talvez devesse substituir o açúcar por fortes doses de café - mas, puxa, não quero morrer do coração aos quarenta anos.

Meu nome é Diego Navarro, e sou viciado em açúcar.

21.5.03

Anakólouthos

Acabo de ler, na Primeira Leitura, um excelente texto de Hugo Estenssoro que propõe que a Segunda Guerra do Golfo foi o momento abissíno, conceito que ele mesmo explica a partir da invasão da Abissínia por Mussolini. E apesar do que o meu resumo tolo pode fazer parecer, o texto defende a necessidade do ataque.

Ora, o artigo de Estenssoro escancara pelo agudo contraste a pobreza relativa do que eu faço aqui. É bem verdade que o meu texto (e que aqui pese a idéia de textura) tem melhorado, mas ainda cometo derrapadas estilísticas horrendas. Onde são passíveis de resolução, o texto é editado; quando torna-se estrutural, fica o erro, e vamos em frente. Dito isso, uma olhada rápida nos arquivos mostra alguma evolução ao longo do tempo - e pretendia eu justamente que escrever se tornasse um círculo virtuoso - mas altos e baixos acontecem a todo momento, e talvez pescar as coisas que valem a pena dê algum trabalho.

Dito isso, ficou a vontade de deixar um post explicitando que o Anacoluto é, antes de tudo, um caderno de exercícios. Nada aqui representa a forma final do pensamento de Diego Navarro. Por um lado, porque a forma final do pensamento não existe - é a única coisa inteligente que Raul Seixas disse em toda sua carreira - e por outro porque um post é uma coisa composta às pressas, sem compromisso, e para os 35-40 leitores diários do blogue.

É um pouco como a foto de uma cena complexa, cheia de gente e props, recortada em dezenas de quadradinhos, que vão sendo jogados aos poucos do alto de um canyon, e são levadas pelo Rio.

Às vezes, posso parecer hiperconservador. Às vezes, um metaleiro de sorveteria. Não tenho a bagagem que é preciso para escrever sobre Bach no nível em que escrevo sobre Coldplay, e gosto da sensação de percorrer terreno inexplorado ao assumir a persona do crítico de rock. Em matéria de política, sou liberal; em matéria de estética, sou hedonista, o que me leva a ser denunciado por toda sorte de ideólogo estético (dos fanáticos por música high-brow aos sambistas hipernacionalistas) como irresponsável.

Lo soy. Reservo a responsabilidade para coisas mais graves; estudo economia para compreender a infraestrutura do mundo real de forma mais objetiva, mas vou decorando os rebordos que me são comissionados de forma - sim - irresponsável. And it's none of your business.

Simplesmente escrevo, como há gente que freqüenta restaurantes - um pouco por gula, um pouco por arte - e como fundo moral, ou como raiz do hábito cultural incompreensível, por necessidade alimentar, por desenvolver o sentido fugidio da frase e da palavra. Há gente que se dedica a desenvolver o sorriso perfeito, a grace under pressure. Eu escrevo.

20.5.03

O blog do Jian Shuo Wang está fazendo uma ótima cobertura da epidemia de SARS na China - não só do ponto de vista dele, mas de alguns viajantes estrangeiros que têm contribuído com crônicas.

18.5.03

Cálculo

Uma das aplicações não-físicas mais úteis do cálculo é a teoria de otimização. Não chegaria ao ponto de dizer que é "interessante" - de fato, me parece ser de uma deselegância terrível, com sua complexidade em crescimento exponencial. Começa bem, com o teorema de Fermat (aquele da derivada igual a zero), mas se torna rápidamente uma terrível sucessão de "teoremas" algorítmicos relativamente artificiais - desembocando naquela coisa horrível, o método de Karush-Kuhn-Tucker.

Pois bem. Duas coisas são importantes para "sacar" a idéia da teoria de otimização. A primeira é o conceito de derivada. Não vou me deter a explicar cálculo diferencial aqui, mas estou recomendando A tour of the calculus do David Berlinski esses dias como uma introdução indolor às principais idéias de diferenciação e integração para gente que nunca vai precisar usar cálculo para nada na vida, mas quer ter uma idéia de que troço é esse.

A outra é o teorema de Weierstrass. A versão que estudei em cálculo II dizia, literalmente, que uma função contínua definida em um domínio compacto atinge um máximo e um mínimo. Pouco antes, o livro introduzia uma mini-topologia real para explicar conjuntos abertos, fechados, limitados e não-limitados. No fim, eles diziam que um conjunto compacto é definido como sendo aquele que é fechado e limitado.

O livro é "Cálculo diferencial a várias variáveis", do Humberto Bortolossi, aqui da PUC-Rio. A estratégia do livro didático preparado específicamente para o curso de cálculo II da PUC é uma faca de dois gumes. Por um lado, o livro é excelente como referência para aquele algoritmo que você esqueceu. Por outro, a preocupação com o tempo, com a didática e com a relevância podem levar a alguns pulos de rigor matemático que o autor estima que não farão muito estrago.

E, puxa, um livro deveria ser mais completo que a aula, sempre.

O nosso curso de Introdução à Análise - que já não é um curso obrigatório para economia - começa construindo uma mini-topologia um pouco mais bem fundamentada antes de partir para funções contínuas. A parte de topologia dos espaços métricos segue mais ou menos "A primer of real functions", de Ralph Boas.

Pois bem. Conjuntos compactos são definidos em um espaço métrico qualquer como aqueles em que, dada qualquer seqüência de elementos, pode ser extraída uma subseqüência que tende a um limite que pertence ao conjunto. Depois é introduzido um teorema (Heine-Borel) que garante que, nos reais, um conjunto fechado e limitado é compacto - mas a recíproca não é necessáriamente verdadeira.

Das duas uma: ou o livro do Bortolossi fez uma grande concessão em rigor matemático ao ignorar que um conjunto real compacto pode não ser necessáriamente fechado e limitado, ou o resultado reverso pode ser demonstrado. Não tenho mais o Boas em mãos - apenas minhas notas sobre ele - mas lembro claramente da página que construía um contra-exemplo, um conjunto compacto que não é fechado e limitado. Posso estar enganado.

Em seguida, o teorema de Weierstrass diz que um conjunto infinito limitado nos reais tem um ponto limite. O livro afirma - e propõe que se demonstre como exercício - que desse teorema mais abstrato é possível tirar o "teorema de Weierstrass" da teoria de otimização - a afirmação de que toda função contínua definida em um intervalo fechado e limitado nos reais atinge um máximo e um mínimo.

Mas ora, podemos afirmar que isso acontece com uma função contínua definida num conjunto compacto dos reais? Depende da recíproca do teorema de Heine-Borel. E enquanto tenho relativa certeza de que o Bortolossi não cometeria um erro dessa magnitude - e portanto a recíproca é verdadeira - não posso usar um argumento sociológico desses numa demonstração.

Quer dizer, quando você faz uma figura, o teorema de Weierstrass do cálculo II é quase evidente - e enquanto ele é demonstrável a partir de resultados mais simples, não me parece de todo um abuso assumí-lo como axioma. Afinal, a própria noção de continuidade já diz que a função não pode ir a infinito ou assumir um valor não-real ou fazer qualquer outra coisa engraçadinha.

De fato, fiquei um tanto decepcionado quando soube que Weierstrass vale apenas para fechados e limitados, e não para compactos em qualquer espaço métrico. Talvez seja só devido ao meu diletantismo, mas a própria idéia de compacidade (compactitude? compactez?) parece muito menos atraente vista desse ângulo.

Claro, tanto o Boas como o Spivak como o curso de Introdução à Análise têm como objetivo final a análise real - muito embora exemplos divertidos dos conceitos da primeira parte de topologia de espaços métricos só sejam possíveis recorrendo a espaços de seqüências e de funções. Essas idéias todas de topologia podem ter significados muito mais amplos quando se pensa, por exemplo, em espaços de funções.

O Lorenzo é um sujeito esperto: quando você percebe, você está com vontade de aprender análise funcional - para o qual primeiro é preciso um monte de coisas dificílimas primeiro. Esses matemáticos é que são felizes....

13.5.03

Do Diesel Sweeties


11.5.03

Ainda "Cidade de Deus"

A lista CINEMABRASIL esteve por séculos numa polêmica sobre o filme "Cidade de Deus" - na maior parte do tempo, no nível bobo que caracteriza sua fauna. O pior é que o meu texto nessa história não ficou tão bom, mas ando com uma tal escassez de coisas para postar - que possam ser desenvolvidas em pouco tempo, anyway - que manterei o Anacoluto vivo com um copy-paste de uma das coisas que escrevi para lá.


"Façamos a revolução primeiro; a poesia virá depois". De quem era mesmo essa frase? Apollinaire ou Maiakowski, talvez. Há um bom tempo que não tenho mais ... tempo ... de pensar nessas coisas.

Bem, a história de Caetano e as guitarras não surgiu por acaso no meio do patrulhamento ao "Cidade de Deus". O Assunção pinta exatamente o quadro que eu tinha em mente, mas tinha medo de montar porque não vivi a época e podia estar cometendo injustiças. Mas eu consigo partir das premissas da Assunção para chegar às minhas conclusões.

Estamos no início dos anos 70. Hendrix e McLaughlin estão dando à guitarra o que Chopin e Lizst deram ao piano - respectivamente personalidade e virtuosismo - e o instrumento está deixando de ser uma característica de cantores caipiras de country para ser incorporado ao vocabulário musical de toda uma cultura que não é americana, mas universal.

Ora, na narrativa do Assunção (e de alguns outros), a rejeição às guitarras de Caetano não é estética, é política. Há um momento político complicado. E aliás, muito mal interpretado, com base em algumas monografias do René Dreyfus que na verade ninguém leu - ora, um regime ultranacionalista a ponto de implantar coisas bizarras como uma reserva de
mercado para informática seria levado ao poder pelo capital internacional?

"Pra não dizer que não falei" (a canção do Vandré) é, sem meias palavras, música ruim.

Qualquer tecladista de churrascaria pode confirmar isso. Ora, se um produto estéticamente pobre está sendo promovido em detrimento de coisas mais sofisticadas (o exemplo clássico é o "Sabiá" de Chico) em nome da política, estamos ficando ideologizados demais.

Mas vivemos num regime capitalista. O que você faz com o seu dinheiro é problema seu. Na verdade, isso é uma coisa ótima: existe uma constante demanda por música ruim (e nisso a egüinha pocotó é herdeira de Vandré) que seria frustrada se pessoas estéticamente sofisticadas tivessem algum direito de cortar o barato dos outros.


O problema é que os filmes brasileiros que discutimos são pagos pelo dinheiro público. E "fazer a revolução" com o dinheiro dos outros é muito, muito desonesto.

E aí entra a patrulha. "Cidade de Deus" está sendo condenado porque não satisfaz os preconceitos ideológicos da patrulha: específicamente, porque a desigualdade social não é explicitada como a causa final de todos os problemas do mundo. Mesmo apesar de grandes concessões a esse monismo socialista pré-adolescente, como a seqüência do supermercado - em que um dos garotos é despedido injustamente do supermercado, e acaba entrando para o crime.

A patrulha exige que todos os filmes sejam emburrecidos até o nível das coisas do Ozualdo Candeias.

Eu li uma série de coisas muito mais interessantes no "Cidade de Deus", e fico triste de ver o debate se prolongar indefinidamente num nível tão elementar. Ao mesmo tempo em que a origem "social" da violência é tratada de forma muito didática, a dimensão da estratégia militar como essencial para a consolidação desse poder que é intrínsecamente militar, e
que está em guerra aberta com um poder constitucional. Fiquei em casa e li o seu e-mail porque "eles" fecharam a Linha Amarela hoje.

Sarajevo é aqui. Pra mim, isso mais do que justifica construir Zé Pequeno como Milosevic. Mas isso é outra história.

Achei que leria bons insights sobre o papel do ex-policial militar que se junta ao bando de Dadinho e que permite a vitória através de seu conhecimento técnico e estratégico. Ora, aqueles que saíram da puberdade ideológica sabem que o narcotráfico adquiriu o conhecimento militar que tem hoje com os presos "políticos" dos anos 70, treinados em guerrilha do lado de lá da cortina de ferro.

Confira as biografias e veja se estou mentindo.

O que a patrulha exige é mais do que financiamento infinito para o produto cultural que reflita a sua visão: ela exige que todas as consciências se orientem por esses preceitos: a desigualdade social é a origem última de todos os males, o capitalismo individualista é por natureza gerador de desigualdade e portanto um controle político central das individualidades acabará com todas as desigualdades e todos os problemas, quando ficaremos como a grande, pujante feliz Cuba.

Que acaba de iniciar uma das mais violentas campanhas de repressão aos "crimes de consciência" de sua história. Mas eu já estou divagando de novo.

10.5.03

Mensagem aos que nos lincam

Pede-se que os links para o Anacoluto passem a figurar como "Vodka" ou "Great Vodka", e não mais "Anacoluto" ou "young man says...".

-- a direção

8.5.03

O problema dos acentos finalmente foi resolvido. E a minha agenda foi aliviada - expect a post real soon.

4.5.03

Pioneiros

O Anacoluto será um dos primeiros a mudar para o novo software da Blogger, o Dano. Coisas estranhas podem acontecer nos próximos dias - just bear with me for a while

"A word about my philosophy of journalism: I don’t like it. Journalism, that is."(Joe Sobran)

Palavras que deveriam ser gravadas em jade, numa placa de mármore, e postadas em toda escola de comunicação brasileira.

3.5.03

Eu não resisti. Dando uma olhada no Granma, encontro a seguinte pérola:

"Un día como ése, de 1833, nació en Puerto Príncipe, Camagüey, el sabio médico cubano Carlos J. Finlay Barrés, quien realizó el mayor descubrimiento científico de la medicina tropical: la transmisión de enfermedades por medio de un vector biológico (el mosquito), con lo que salvó a la humanidad del azote de la fiebre amarilla."

O engraçado é que depois da guerra hispano-americana - em 1895! - quando os Estados Unidos tomaram sob sua tutela várias colônias espanholas, o bacteriologista americano Walter Reed - que acabou dando nome ao famoso hospital em Washington - teve que ser chamado a resolver o problema da epidemia de febre amarela em Cuba. Em seis anos, a doença estava extinta em Cuba.

Em mais quatro, a febre amarela estava sob controle em quase todo o mundo. Inclusive no Brasil, onde o nosso Oswaldo Cruz sabia que era mais importante ajudar as pessoas do que ser antiimperialista.

Quando eu era criança, li um livro sobre como a vitória do homem sobre doenças que já foram um flagelo. Ainda lembro de várias dessas histórias. Esta era apenas uma delas.

Itália faz doação de mais de um milhão de euros para Cuba

Mas o governo italiano não era mezzo-fascista-mezzo-perón e pró-americano?


2.5.03

A única coisa que não ficou claro é o que as câmeras estavam fazendo .

1.5.03

Duas palavrinhas sobre a débâcle das reformas

Era impossível não acontecer. O Serra, que era feio mas não era burro, alertou no programa de TV - mas era retórica demais para ser eleitoralmente compreensível. FHC foi eleito em um momento de caos - o próprio Delfim Netto admite que era impossível debater política macroeconômica para o longo prazo naquele momento - e apenas isso explica a maioria que obteve: por um instante, vigorou a idéia que apenas a razão traria alguma estabilidade que permitisse repensar o tal do "projeto para o país".

Acho que é desnecessário especular aqui o que teria acontecido se Lula tivesse sido eleito em 1994. Não haveria Palocci, Meirelles, racionalidade macroeconômica ou Bovespa nos 13000 pontos. É primeiro a estabilidade que permite comparar dois projetos de desenvolvimento para o país - um com déficit e outro com superávit em transações correntes. O debate técnico sobre o papel desse indicador contábil um tanto arcano requer mais tempo, e não é o que me interessa. Para além disso, o Real tencionava ser um plano de política fiscal apertada e política monetária frouxa.

O aperto fiscal nunca aconteceu. E agora o PT admite ou finge que foi uma jogada política. A expulsão de Heloísa Helena pode levar à divulgação de uma fascinante história interna de como o PT flutuou para a outra margem do rio.

Lula foi eleito em 2002 manejando com habilidade um discurso ambíguo. Duda Mendonça é um grande publicitário, e conseguiu mascarar a incompatibilidade fundamental entre os dois discursos que elegeram Lula: o da racionalidade macroeconômica e o do direito natural. A racionalidade macroeconômica ainda ordena o aperto fiscal - ou pelo menos esta é a lição do Real que Palocci optou por seguir - mas o direito natural (e aqui entra a imagem das "conquistas trabalhistas") exige que o que é moralmente certo seja feito a qualquer custo. O Serra advertiu - mas quase que por definição, as massas são impermeáveis à lógica.

Como aprendiz de economista, sou parcial. O jurista assume que o direito emana da personalidade - a criança nasce, e tem direito a trabalhar no futuro, o que implica em desemprego zero. Nós partimos do princípio de que não há direito sem possibilidade. E procuramos encontrar soluções técnicas para expandir a fronteira das possibilidades, embora às vezes isso passe por cima do que a pura lógica do direito natural exige que seja feito.

É um pouco como se eu, ignorando as restrições orçamentárias da família, me ponha a exigir, agora, um Pod da Line6 (processador de efeitos de guitarra) e uma HP 19B (calculadora financeira) - baseado em argumentos do tipo ser um excelente aluno e ter um ouvido musical admirável.

Claro, o que eu deveria fazer é arrumar um emprego.

30.4.03

Bovespa = Serra Pelada.

28.4.03

A teoria dos cem dias

Memes são coisas interessantes: idéias inteiramente arbitrárias que se propagam com extraordinária velocidade e às vezes ganham força de verdade. É um conceito mais amplo que o de rumor: o boato refere-se a uma novidade que ainda será anunciada. Um tempo atrás, circulou a meme de que "Crimson and Clover", choroso hit do pop mauricinho dos anos 60, seria do Velvet Underground, a ameaçadora banda de Lou Reed celebrizada por suas canções sobre heroína e sadomasoquismo.

Não foi muito difícil: bastou jogar na net uma mp3 com o crédito errado.

De fato, nem toda meme se pretende "verdade". Vide a ubíquita obra-prima do cinema contemporâneo, All your base are belong to us. Trata-se de uma meta-meme descrevendo a sua própria conquista da Terra. É fabuloso.

Eu suponho que, chegando ao conhecimento de uma grande população em que ninguém tivesse conhecimento de gramática inglesa, passaria por inglês correto, adquirindo estatuto de verdade. Ora, a meme se torna verdade quando se encontra com um deserto intelectual. Não sabendo o suficiente para perceber quando algo recende a bullshit. Aí entra toda a galeria de patranhas que professores de comunicação regurgitam sobre economia, história e política.

Quero crer que a experiência acaba por ensinar aos jornalistas o que eles deveriam ter aprendido durante sua formação. But, to no avail. É impossível que um curso de quatro anos forme especialistas em economia, ciência política, criminologia e futebol. E então os nossos valorosos formadores de opinião se apóiam na opinião dos "especialistas".

Não sou defensor do "senso comum" como parte da cena blogueira liberal. A realidade é freqüentemente contra-intuitiva, e como diz C.S. Lewis, "All your base are belong to us". Er, não, "o que aprendemos da experiência depende do tipo de filosofia que trazemos a ela. Logo, é inútil apelar à experiência antes de elaborarmos, dentro das nossas possibilidades, a questão filosófica."

Ainda assim, surpreende como predominou a teoria dos cem dias. É uma formidável meme Supostamente, todo governo desfruta de cem dias de trégua, ao final dos quais será julgado. Ora, o que vimos foi um grande período de forte excitação política, cem dias antes e cem dias depois da posse, que serão seguidos de três anos de apatia. Lembro, às vésperas da eleição, os cartazes em um dos CA's da PUC: "Só um golpe tira a vitória de Lula". Esse foi o ponto alto da excitação política.

Ainda durante os primeiros dias depois da posse, muito se prestou atenção a cada ação do governo. Os encontros, as decisões na área econômica; Fidel, o primeiro encontro do Copom, foram seguidos com preocupação e interesse. É apenas natural; não havendo precedentes, as pessoas temem ou esperam as mudanças.

Passados os cem dias, acabou a malha fina. A partir de agora, all your base are belong to Lula.




25.4.03

Frases imortais

"Em matéria de economia, sigo as orientações do senador Mercadante" -- Antonio Palocci, ministro da Falência, er, Fazenda.

24.4.03

Estou tendo dificuldades para escrever no Anacoluto estes dias. Aos novos, recomendo ler os posts antigos, que não perderam de todo sua validade. Aos habituais, peço que durante o hiato rezem a Mingus pela alma deste cavaleiro andante.

21.4.03


just do it



20.4.03

Os porquês

Para os de pouca visão, eu sou um tipo pretensioso, um pouco pedante, com mais superfície do que substância. Os mais espertos reconhecem em mim o herói trágico, inflamado de hybris, que tenta realizações além de sua capacidade e cai derrotado pela força dos obstáculos.

A verdade é mais simples: eu sou um pouco imediatista, e movido a excitação intelectual. Há uma indelével camada de cultura que me impede de apreciar as coisas babacas da vida, como churrascos que são desculpa para beber álcool de modo a ter coragem de fazer ridículas investidas pseudoromânticas em desconhecidas. Não que eu não goste de beber, entre amigos e amigas: não há nada tão liberador quanto aquele momento de verdade sem filtros.

É essa minha segunda pele que faz com que eu não aprecie a aurea mediocritas do pagode-cerveja-mulheres. É uma pena, porque gosto de mulheres. O ponto é que as formas tradicionais de excitação e alegria fáceis não fazem nada por mim, e eu sou impelido a buscar formas mais sofisticadas de excitação e alegria - para as quais nunca sei se sou feito de matéria densa o suficiente.

É uma relação custo-benefício complicada, mas eu adquiri esse vício. O pior é que não tenho a vocação ascética dos grandes gênios. No fim, fico perseguindo uma espécie comum de humanismo total (matemática, antropologia, música, literatura) não por uma estranha razão ética de pairar acima dos comuns (e creio ter derivado pela lógica a ética usual do don't-hurt-be-nice-help-those-in-need), mas por uma forma distorcida e contrita de hedonismo. Isso faz com que eu seja fundamentalmente diferente tanto do Cláudio como da Kinha.

Nada é fácil de entender.

Até o panorama melhorar, serei bígamo. Esperei por dois dias a volta do SquawkBox, e ele continua fora do ar. Instalei um novo sistema de comentários sem retirar o velho.

Os anacolutenses devem escolher a caixinha de comentários que preferirem, ou a que estiver funcionando.

19.4.03

Será possível que a esquerda esteja amadurecendo?

18.4.03

Preciso de um baterista. Se você mora no Rio e é um sem-banda, deixe seu nome e e-mail na caixinha de comentários abaixo.

17.4.03

A história de Mestre Jonas pode ser uma parábola sobre o funcionalismo público? Será que o André Abujamra é esperto assim? Ou será que o Jonas bíblico já era o que em sindicalês se chama SPF das IFES?

16.4.03


Dentro da baleia mora Mestre Jonas
desde que completou a maioridade
a baleia é sua casa, sua cidade
dentro dela guarda suas gravatas, seus ternos de linho
e ele diz que se chama Jonas
e ele diz que é um santo homem
e ele diz que vive dentro da baleia por vontade própria
e ele diz que tá comprometido
e ele diz que assinou um papel
que vai mantê-lo preso na baleia até o fim da vida
até o fim da vida.
Dentro da baleia a vida é tão mais fácil
nada incomoda o silêncio e a paz de Jonas
quando o tempo é mau, a tempestade fica de fora
a baleia é mais segura que um grande navio.


Rock brasileiro de qualidade. Incrível. Existe. Os Mulheres Negras. Aparentemente é uma banda antiga do André Abujamra. Ouvi "Mestre Jonas", que entrou na trilha sonora de "Durval Discos". Na MTV, por acaso. Fiquei muito, muito surpreso.

Recomendo baixar do site do filme.

15.4.03

E, num típico metacomentário-de-blog, à minha amiguinha palindrômica (miss you, sweetheart): eu sou um gosto adquirido, como John Coltrane. Às vezes, pessoas de mente simples e vida simples gostam de John Coltrane porque sim. Às vezes até porque gostam do timbre do sax dele. Ou porque ele toca "My Favorite Things".

E às vezes pessoas sofisticadas, com doutorado em Arquivologia, ouvem Chico Buarque e Caetano. Losers. Quero estar cercado pelas pessoas que gostam de Trane. Mas uma exceçãozinha está sempre aberta para você.

Sempre tentaram me dizer que Cuba era um caso à parte, complexo demais para ser julgado nos mesmos padrões que outras ditaduras.

Pois bem: existe um país, chamado Lalalândia, em que 78 dissidentes, entre eles jornalistas e economistas, foram presos sumáriamente de uma cartada só. Três já foram executados. E todas as nações razoáveis do mundo deveriam estar condenando essa atitude.

Só que esse país não se chama Lalalândia, mas Cuba. Não foi Oscar Wilde que apontou primeiro a importância de se chamar Ernesto?

11.4.03

É possível que tenha sido a campanha política mais cara da história do Ocidente. Custou, por baixo, uns 600 bilhões de reais - dados do site do IPEA. À cotação atual, duas mil toneladas de ouro. Nabucodonosor nunca sonhou com tanto.

Tudo uma farsa para chegar ao poder.

OH FUCK!

10.4.03



... well, because m'lud freedom is a state much prized within the realm of civilized society. It is a bond wherewith the savage man may charm the outward hatchments of his soul, and soothe the troubled breast into a magnitude of quiet. It is most precious as a blessed balm, the saviour of princes, the harbinger of happiness, yea, the very stuff and pith of all we hold most dear. What frees the prisoner in his lonely cell, chained within the bondage of rude walls, far from the owl of Thebes? What fires and stirs the woodcock in his springe or wakes the drowsy apricot betides? What goddess doth the storm toss'd mariner offer her most tempestuous prayers to? Freedom! Freedom! Freedom!

(do Monty Python's Flying Circus)




8.4.03


You cannot have both. I mean a fish having a meeting one billion years ago under the water and saying: "We are fish, we have all this power, now it is time to conquer the land". But you cannot conquer the land while remaining fish. You can't go to the real world remaining mathematicians; that's absurd. Either you study real problems in the real world - it's a remarkable intellectual challenge, or you remain a mathematician.

(M. Gromov, Dead Sea discussions, in: GAFA 2000. Visions in Mathematics)


Tirado daqui. O autor é um matemático, o que torna a agressão políticamente correta. É um pouco como só negros têm direito a dizer nigger.

4.4.03

A lista CINEMABRASIL anda aprontando mais uma: um boicote ao cinema americano. Este texto foi escrito para lá, mas fiquei feliz com o resultado, e copieicolei para a apreciação dos anacolutenses.



A UFF - aliás, o prof. João Luiz Vieira - tem o mérito de mostrar Griffith aos seus alunos logo nas primeiras semanas de aula. Quer dizer, não só a tecnologia "cinema" foi inventada efetivamente por Edison (os franceses não fizeram mais que criar a sala de projeção), como criaram a própria linguagem visual do cinema de ficção como ainda usamos hoje. E apesar de toda a importância atribuída pelos teóricos ao "dispositivo" que representaria a sala, o fato é que cinema em nickelodeon (maquininha para consumo individual) continua sendo cinema - como continuam sendo nossos home-theaters - enquanto não há dispositivo sem tecnologia.

A experiência americana é fundamental no processo de construção do mundo como o conhecemos hoje, e se você começar a enumerar as coisas que são símbolos do espírito americano e que deveriam ser boicotados, vai ficar com pouco mais que tulipas holandesas e engenhos de açúcar. Raios, a forma como experimentamos e compreendemos Bach hoje se deve em grande parte a um americano. Mesmo a idéia que temos de desobediência civil se deve a um americano. Thoreau precede os socialistas utópicos franceses em ainda mais tempo que Glenn Gould precede Zoltan Kocsis ou Edison precede os Lumière, ou ainda a revolução americana precede a francesa.

Quando Edison, já famoso, anunciou que inventaria uma lâmpada elétrica, as ações de companhias de gás no mundo todo desmoronaram imediatamente. Muitos cientistas de todos os países tentaram chegar antes do inventor americano. Edison, que não tinha formação científica, demorou anos a conseguir montar um protótipo que funcionasse. Paris continuava sendo a cidade-luz, mas algo de muito simbólico estava acontecendo quando a interiorana Menlo Park foi a primeira rua do mundo a ter iluminação elétrica. Coisas como essa são as experiências formadoras do nosso mundo - que não é o mundo de Kant e Hegel, mas de Marshall e William James.

Alguma coisa está acontecendo agora? Alguma coisa esteve acontecendo quando o mundo se calou sobre os atentados de NY? É difícil saber. Quem é o "feiticeiro de Menlo Park" do mundo árabe que quer se colocar como bloco de oposição, ou do terceiro-mundismo rebelde? O que é certo é que Nova Iorque é hoje o que Paris era em 1900: pode estar em franca decadência, mas é o símbolo que tudo o que a civilização do nosso tempo tem de mais rico. Se vocês estão dispostos a se privar disso em nome de uma posição política que nunca acabaram de compreender, beem, é uma das opções que o sistema capitalista oferece. Eu vou tomar emprestado com um amigo uma cópia do "A noite americana", e não acharei que estou ajudando a fazer parte de alguma coisa.

3.4.03

Últimas palavras sobre a guerra antes do fim

(...)We serve an old moan in a dry season
A lighthouse keeper in the desert sun
Dreamers of sleepers and white treason
We dream of rain and the history of the gun
There's a lighthouse in the middle of Russia
A white house in a red square
I'm living in films for the sake of Russia
A Kino Runner for the DDR
And the fifty-two daughters of the revolution
Turn the gold to chrome
Gift...nothing to lose
Stuck inside of Memphis with the mobile home, sing:

Mother Russia
Mother Russia
Mother Russia rain down down down
(Sisters of Mercy, "Mother Russia")



Sempre fui contra o hábito de postar letras de música em blogs, mas as únicas palavras sobre guerras no fim estão em letras de música. Quando da derrubada do Talibã, citei "Something for nothing". A derrubada do Talibã teve o gosto civilizatório da vitória da razão sobre a barbárie pura, mas a queda de Saddam dá apenas a sensação de estar vivendo em um mundo cada vez mais complicado.

2.4.03


É preciso estar atento e forte; não temos tempo de temer a morte

31.3.03

O anacolutismo também é um antimovimento

Acho que muitos anacolutenses estão cansados de textos sobre matemática. A minha visitação teve uma queda violenta depois de "Meditando sobre Cálculo II", postagem que alguns especialistas encaram como uma mudança nos rumos do anacolutismo.

O anacolutismo continua vivo, e tem ainda muito a ver com música, política, sistemas pivotantes de significado e a firme convicção de que mais opção é preferível a menos opção. Sempre. E não é por amor à audiência que mudo um pouco de assunto hoje. De todos modos, o anacolutense descontente sempre deve manifestar-se na recentemente inaugurada caixinha de comentários aí embaixo. Mas vamos ao assunto.



Tenho percebido que boa parte da cena blogueira de direita - e nisso se incluem alguns dos anacolutenses que mais aprecio, como o Cláudio e o García Rothbard - são melômanos, partidários da música clássica. Certamente, Emperor não é a banda mais adequada para iniciar um melômano no rock. O meu próprio caminho foi tortuoso. Fui, durante a adolescência, um partidário radical da música erudita. Já fui daqueles que sabem grande parte dos recitativos de "La Vera Costanza". Sou o filho de um violonista erudito, e tive uma convivência próxima com a música que não tem preço. Principalmente quando queremos nos meter a grandes tarefas como uma atividade crítica intelectual de rock.

Recomendo uma iniciação com Univers Zero. O som e a estrutura serão familiares; o seu rock consumer típico nem mesmo perceberá que se trata de rock. E o Michel Breckermans é um oboísta muito divertido. Mais sobre isso algum dia.

Costumo ser partidário dos batismos de fogo: não há outro lugar para iniciar um fã de rock na música clássica que não a "Arte da Fuga". Tenho feito um bom trabalho nesse campo, fundamental para sofisticar a apreciação do próprio rock, mas não tentei ainda o caminho oposto. A regra do batismo de fogo mandaria iniciar um melômano com Buzzcocks ou Emperor.

Mas Buzzcocks é uma banda idiota, e Emperor não é a banda mais adequada para iniciar um melômano no rock por duas razões muito fortes. A primeira é que a sua variante extrema de black-metal só começa a fazer sentido quando você tem uma idéia muito firme do sistema de gêneros, da sua evolução, e do que uma massa essencialmente amorfa de som como "Into the Nightside Eclipse" significa em relação a esse sistema de gêneros.

A segunda é que seu disco mais importante, que discutirei hoje, é uma massa essencialmente amorfa de som. Melômanos estão acostumados à cor, e rock é, em geral, em preto-e-branco. Sei da minha experiência: enquanto eu reconhecia o estilo de alguns regentes de orquestra, não encontrava diferença funcional entre lambada, Pantera e Little Richard. De fato, Emperor é muito extremo mesmo para um fã de rock bastante avançado, daqueles que navegam confortávelmente entre a jazz-fusion, variantes excêntricas do heavy-metal e pitadas de avant-prog à UZ. Não ajuda que o disco seja mal mixado; é difícil estabelecer até que ponto a mística do "Into the Nightside" que não sobrevive em um disco muito mais sofisticado que é o "Prometheus" se deve à gravação plana, comprimida, ou à perda de vários membros fundamentais, entre eles o baixista Mortiis - que em carreira solo acabou se tornando um faux-medieval à Sopor Aeternus.

Mas esta é uma massa amorfa de som muito diferente de algumas coisas feitas explícitamente nesse sentido. Não é a musique d'ameublement de Brian Eno. E não é a dissonância-pelo-ritmo das sinfonias de Glenn Branca. Há uma estrutura bastante tradicional mantida aqui: bateria, guitarras interlocking, teclados. Uma das primeiras coisas que chamam a atenção define justamente a importância da presença de Mortiis: as suas letras. É fato que as letras de Mortiis tem muito mais de um certo sentido ozzyosbourneano de auto-paródia, de entretenimento com a própria mitologia de noruegueses vikings seguidores das antigas religiões. Mas da forma que são cantadas, as letras são essencialmente incompreensíveis - ouve-se apenas algo como uma tosse rouca, um latido, que acaba formando parte do ataque sonoro tanto quanto a barragem de guitarras e a bateria. Na verdade, a estrutura rítmica das letras é o que há de interessante aqui: sem Mortiis, os Emperor tiveram que recorrer à melodia, inteiramente ausente nos vocais aqui.

Para um fã de heavy-metal experiente - mas virgem de black-metal norueguês - e disposto a entrar nesta, a primeira audição do "Into the nightside" será principalmente uma experiência brutal, evocando paisagens geladas povoadas por guerreiros. À medida que o som vai se distingüindo, percebe-se a tempestade de gelo na interação rítmica da bateria com as letras de Mortiis. É algo bastante interessante de se acompanhar.

Mas como em quase todo álbum de rock, há coisas mais interessantes na semiogênese do que na música própriamente dita. O black metal norueguês tem um caráter de movimento que não cabe historiografar aqui. E embora de uma perspectiva puramente histórica haja marcos mais importantes como os primeiros discos do Mayhem, eu percebo o impacto cultural do Emperor como sem paralelos no heavy-metal menos mainstream.

Metaleiros às vezes têm uma obsessão por veracidade que os aliena das coisas mais interessantes do rock - em geral, longe do heavy metal, longe do purismo, em combinações inusitadas e geradoras de sentido; neste caso, o impulso pela veracidade passa longe do marketing e da inserção no gênero.

Para fazer um recorte anedótico, o vocalista Ihnsahn tem um prego imenso na testa, que ele mesmo enfiou com um martelo numa festa em um desses porões onde a disenfranchised youth se reunia para recuperar os "valores fundamentais" da civilização viking que teriam sido reprimidos pelo cristianismo - a dimensão da violência como geradora de sentido, como criadora de verdade - para usar um conceito familiar, embora não aplicável a este sistema mítico em particular, o sentido do Valhalla, da guerra como redenção.

É desnecessário ressaltar o tipo de controvérsia que isto deve ter gerado; este artigo dá toda a historiografia em detalhes, incluindo a relação complicada de religião e estado na Noruega, os personagens mais interessantes deste movimentto pseudoreligioso neo-viking. Resumidamente, os membros do Emperor começaram a se envolver em vários episódios de incêndio criminoso de igrejas de madeira do século XIII. E estão todos presos. É muito interessante ler sobre o assunto em detalhes.

O que é importante aqui é a como essa mitologia toda envolve o disco; como um movimento neoviking ultranacionalista - que rejeita até o cristianismo, presente no país desde o ano 995 como "intruso" - se manifesta através de guitarras, um dos símbolos mais vitais da civilização ianquecêntrica; como se espalha pelo mundo e cria sentidos e significados distintos para populações inteiramente alheias uma representação direta e sincera de um movimento sinceramente violento, alimentado por mitos fundadores - a citação da namorada de Insahn no artigo que acabo de lincar é reveladora: "None of the
Gods in Norse mythology are weak like Jesus is weak".

O que significa para Diego Navarro, aprendiz de economista, o consumo de uma massa brutal de som como "Into the Nightside Eclipse"? Quer dizer, eu estou aqui mais ou menos no mesmo ponto que, por exemplo, o meu amigo Caveira "Brutal", que estuda matemática aqui na PUC. Há sentido sendo criado aqui. Arte é a criação de significado. O significado está sendo constante e invisivelmente criado como a riqueza está sendo constantemente criada. Excluído o maelström técnico, o seu valor teórico, a "Arte da Fuga" é um exemplo sofisticadíssimo de códigos se interpenetrando - códigos que vêm de um contínuo de evolução que vai desde o alvorecer da música polifônica no fim da idade média.

Dito isso, Univers Zero para quem resolver se aventurar. Vale bem a pena, mesmo que você nunca vá além. Se alguém tiver uma gravação da Arte da Fuga que eu não tiver - eu faço coleção - podemos trocar em CD-R.

28.3.03

Novo babado - fortíssimo!

Buemba! Buemba! Vazaram as fotos do próximo ensaio sensual do site Paparazzo. A retratada é a sempre querida e popular função de Cobb-Douglas, preferência nacional. O ensaio sensual mostra as curvas sensuais da topologia enxuta da nova mania carioca.







26.3.03

Meu filho vai saber sobre espaços métricos assim que começar a entender os números e as operações básicas.

E pensar que eu tive que esperar até os vinte anos pra ficar sabendo disso...

23.3.03

"As a boy, Russel had sung in the choir at the Chapel Royal, Windsor Castle, was boy soloist to Queen Victoria and sang at her funeral. The choirboys were allowed to run of most of the castle with one proviso - that the Queen should appear, they were to disappear - on pain of death. Russell told me of a most strange encounter.

At that time amateur performances were frequently staged in the castle with members of the royal family and others in the cast, and arrangements had been made for the celebrated wig-maker Willie Clarkson to make and dress the wigs. Now Willie Clarkson was a homosexual with a predilection towards choirboys - and Russell and his fellow choristers were eminently aware of this: each new boy joining the choir was warned, watch out for Willie. One day, Russell and another boy were nearing the end of a long gallery (half a mile long, Russell used to say) when they heard Willie's mincing voice calling from the other endd, 'Choirboy - choirboy!' Russell's friend was off like a shot but Russell was trapped as the panting Willie caught up with him and pleaded, 'Choirboy - help me - you must do something for me. My inside has been in a terrible state and only this morning I took some tablets, then on the way down I could feel them beginning to work - there was no lavatory on the train; the one at the station is out of order and I need one desperately - now!'

Russell who knew the castle well, said, 'The nearest one is the other side of the courtyard...'

'I can't get there', simpered Willie.

'Well, there is one here, but it is for the private use of the Queen.'

'I don't care - I'll have to go - where is it?'

'Just up that little flight of stairs, on the right - but you'll be shot.'

'Then keep guard for me,', groaned Willie as he shuffled up the steps.

Russell stood there apprehensively when suddenly from the distance he heard a voice, a voice crying, 'Make way for the Queen!' Terrified, Russell looked around. It was now too late to run, but a large tapestry hung on the wall: he slid in behind it and flattened himself to t he wall ('I hid behind the arras', said Russell in later years). Through the crack he saw the royal party come round the corner and advance down the gallery - the procession was headed by the Lord Chamberlain with his Ward of Office followed by some Gentlemen-at-Arms; then came a wheelchair of basketwork in which was seated the aged Queen Victoria, Empress of India, Defender of the Faith. At the four corners of the chair walked four enormous Sikhs resplendent in their turbans and uniforms, sabres at their sides...

'Make way for the Queen!'

Russell trembled as they moved slowly along. But then, horror upon horror, as they drew level the procession stopped and he heard the creaking of someone getting out of a basketwork wheelchair and then the tap-tap of an ivory-mounted ebony cane helping someone up the steps, followed by the sound of a brass handle being turned...

A Germanic 'Aaargh' rent the air... Willie Clarkson's plaintive voice could be heard saying, 'It's only me, Your Majesty, Willie Clarkson - Your Majesty's Perruquier - sitting on his own initials.'"

(das memórias de Donald Sinden, "Laughter in the second act")

20.3.03

Referências

Estou cansado de falar de coisas graves. O meu e-mail está cheio de pequenas homilias pela paz e grandes diatribes antiamericanas, mas não tenho mais energia para continuar nessa. Alguém quer fazer o favor de assumir a partir daqui? Deixe a sua URL nos comentários que eu linco, ali no painel da direita. De fato, eu estava sem energia para blogar at all, mas a Kinha pediu com jeitinho. Então vamos lá.

É divertido ponderar com as décadas vindouras vão estruturar a narrativa desta guerra. Se for uma guerra curta, certamente ficará marcada como atrelada a um objetivo e nada mais. Mas se for um conflito longo, envolvendo vários países, ganhará contornos similares à guerra mundial de 1939-45. E nesse caso, o marco inicial não será o ataque de ontem, mas os eventos de 11 de setembro de 2001.

De fato, uma guerra "mundial", de grandes proporções, deixa de ser sobre situações específicas - como a Alemanha invadindo a Polônia - e passa a ser sobre valores maiores, sobre grandes ideais. A guerra de 1939-45 foi sobre muito mais do que derrubar um bigodudo perigoso para o mundo - foi uma guerra contra o nazi-fascismo, fenômeno original de seu tempo. Mas isso já são as coisas graves que eu não queria discutir. Às leviandades:

Onde você estava quando os atentados de 11/9 aconteceram?

A UFF estava grevando. Sim, eu estudava na UFF. Comunicação Social (yep!). Mas eu estava decepcionadíssimo com o curso, e preparando-me para novo vestibular. Enrolado com a matemática, eu tinha decidido matricular-me num cursinho pré-vestibular, e começara no dia anterior. As aulas acabavam às dez da noite, e foram cansativas o suficiente para que eu dormisse até umas dez da manhã do dia seguinte. Teria dormido mais, se não tivesse sido acordado.

A impressão mais forte que tenho é a da câmera fixa da Globo, provavelmente em seu escritório em NY, em que as torres gêmeas eram vistas com o mar ao fundo, e nada mais. A impressão subjetiva de que a cidade estava afundando. Passar vinte, trinta minutos assistindo a uma imagem fixa na TV tem os efeitos psicológicos mais interessantes: o bombardeio ontem começou à meia-noite, mas depois de alguns minutos eu tinha a sensação de que estava amanhecendo aqui.

Mas esse tipo de identificação não aconteceu back then. Em vez disso, a imagem dos dois últimos prédios do mundo visível em chamas, com o mar como único fundo e único entorno, traziam a nítida imagem do clássico fim do mundo como o conhecemos. E claro, a idéia de que estavam acontecendo essas coisas simultâneamente em todo o país. Parecia que seria um longo dia de surpresas.

Não foi. Depois das duas torres e do Pentágono, nada mais aconteceu. O mundo voltou ao normal lá pelas 13 horas daqui. Ou será que não?

14.3.03

Refletindo sobre Cálculo II

Aquecendo os tamborins para Teoria Microeconômica I, estive revisando os conceitos e teoremas de Cálculo II. Numa explicação resumida, o ciclo de Cálculo na PUC tem quatro períodos, dois dos quais são obrigatórios para economia. O Cálculo I ensina uma mini-análise, derivação e integração a uma variável; o II cobre uma mini-topologia, derivação a várias variáveis e otimização. Presumidamente o III consiste em integração múltipla e o IV em equações diferenciais ordinárias aplicadas à engenharia.

Cálculo I foi um curso maravilhoso, que me fez sorrir e me fez chorar. Aterrisado diretamente de uma aula de Cinema de Animação com o prof. Moreno na sexta-feira, acordei segunda de manhã assistindo à primeira aula de matemática do resto da minha vida. Foi uma época bastante contraditória: enquanto eu estava fascinado por certos aspectos construtivos do cálculo, a prova de integrais foi uma dreadful experience. Lembro-me de encerrar-me por três tardes inteiras na biblioteca resolvendo dezenas e dezenas de exercícios muito parecidos.

Cálculo II também teve uma primeira parte teórica, mas eu estava escaldado o suficiente para ficar esperando, com o coração frio, a parte onde esses novos conceitos interessantes seriam usados para em prol de procedimentos chatíssimos. Muito da primeira seção de cálculo II nunca foi aplicada à parte de otimização, e hoje arrependo-me de não ter aceito melhor as aulas teóricas do prof. Derek.

O método geral de otimização foi sendo construído lentamente, usando a maioria dos conceitos da primeira seção - embora muito não fosse necessária para "fazer as contas" - e foi se tornando tão grande que passei a maior parte do tempo dedicado a cálculo II procurando aprender os teoremas como as tábuas da Lei que só agora percebo a artificialidade de construções como o Lagrangeano.

Essas coisas parecem ser feitas de modo a serem programáveis. Literalmente, não é difícil fazer com que um computador derive, dada uma rotina esperta de leitura de uma string. Por outro lado, não creio que seja fácil fazer com que um computador integre. É possível fazê-lo aqui, ou com um pacote qualquer de computação simbólica. Mas toda a segunda metade de Cálculo II foi dedicada a um algoritmo relativamente linear: com um par de rotinas de derivação e cálculo de determinantes, não é difícil construir um programa que resolva a grande parte de seus problemas.

Um dado módulo de conhecimento objetivo difícil pode ser muito excitante, ou pode ser frustrante e tedioso. Internalizar aquelas duas ou três regras de integração foi terrívelmente frustrante, e acabou com grande parte da excitação conceitual por trás das integrais. Pensei em mim mesmo a vida inteira como um cara de "humanas", e antes da PUC nunca tinha visto uma integral a cem metros de distância, mas uma vez tentei uma solução intuitiva numa prova de vestibular que era uma tentativa de integração numérica.

Mais tarde descobri que Arquimedes já conhecia o que eu tinha tentado - o "método da exaustão". Estritamente falando, era como a demonstração que Isaac Asimov descobriu para o último teorema de Fermat - não era, e o próprio Asimov sabia minutos depois.

Terei o maior prazer em não fazer o Cálculo III, mas é provável que acabe fazendo o IV. Estou inscrito em Introdução à Análise, o que aparentemente é uma temeridade - afinal, é no terceiro período de economia que se separam os homens das crianças, com estatística I, teoria microeconômica I, contabilidade, contas nacionais, FEB - que nas duas primeiras aulas já foi muito mais difícil do que os cursos de história econômica até aqui - e last but not least álgebra linear. Última disciplina da Matemática na grade obrigatória, o curso de "algelin" promete ser chato, computacional e algorítmico, e talvez seja difícil.

Ainda assim, me inscrevi em Análise por razões contraditórias: por um lado, o meu soft spot pela beleza da matemática precisa de um afago, depois do teorema de Karush-Kuhn-Tucker. Por outro, preciso testar até onde realmente vai o meu estômago por Matemática de Verdade para saber se devo fazer EDP e coisas assim, ou apenas um curso de Cálculo IV. É uma decisão que vai contra toda a lógica mais básica de um maquiavelismo dogbertiano. O meu CR já não está tão bom quanto eu gostaria que estivesse, e fora do meu mundinho um número é um número, não importando se fiz Natação, Fotografia e PowerPoint para Iniciantes ou Estatística, Micro I e Análise.

Mas as duas primeiras aulas foram incrívelmente excitantes. Quer dizer, o custo marginal de fazer mais uma disciplina é medido em frações da minha capacidade intelectual - e como o mundo continua mandando sinais contraditórios sobre as reais possibilidades da minha inteligência, esse custo não pode ser acuradamente medido, o que torna uma análise custo/benefício muito difícil de executar - mesmo que eu pudesse mensurar a thrill de estar estudando matemática.

Mas, bem, para citar o Rush, "we will pay the price / but will not count the cost". Ah, os riscos....

DISCLAIMER: sim, o post do Cláudio meio que motivou este, mas não é em absoluto algo uncalled for. Há várias semanas que venho prometendo escrever sobre matemática; é a primeira vez que consigo.

11.3.03

Música para tempos de guerra

Em primeiro lugar, digam o que disserem, sempre é legal ouvir euro-metal muito pesado com letras em latim. Acho que somente isso já seria suficiente para uma boa infatuation com o Tanzwut. Adicione a isso as gaitas de fole e alguns vocais adicionais gravados pelo atual herdeiro do conde Vlad "Dracul" Tepes (sim!). É muito divertido.

Na verdade, é mais interessante que isso. Os membros do Tanzwut são exatamente as mesmas pessoas que formam o Corvus Corax. Uau!

Durante dez anos, Corvus Corax foi um grupo muito sério, admiradíssimo pela crítica, que pesquisava compilações de música secular da Idade Média e fazia discos e shows. Um dos primeiros discos trazia um manifesto que denunciava a forma como o circuito acadêmico de música medieval apresenta quase exclusivamente peças sacras. O lema do grupo passou a ser "Inter Deum et diabolum semper Musica est".

Ao vivo, Corvus Corax sempre foi incendiário. Existe, inclusive, uma incipiente cena de troca de bootlegs similar àquela que existe com o Grateful Dead. A hype se justifica não apenas porque há uma grande quantidade de material - principalmente escrito pelos próprios membros - que nunca foi gravado em estúdio, mas também por causa da incrível energia com que se executa esta música que poderia ser chata e academicista.

Daí a minha insistência periódica em afirmar que os Corvus Corax são os verdadeiros salvadores do rock. Muitos previram que as guitarras desapareceriam. Mas eles mesmo cruzaram a fronteira, e se reformaram como uma banda de euro-metal à Rammstein. Tanzwut.

Dentro de toda aquela espinha dorsal teórica que tenho tentado estruturar, há aqui em primeiro lugar uma grande mistura de códigos. No máximo de sua popularidade, de sua selvageria roqueira, Corvus Corax sempre teve uma indelével edge intelectualizante. Certamente não importa quando você está no meio da multidão quebrando os ossos ao som de "Bärentanz", mas no momento de refletir sobre a música, a sua constituição interna é, sim, importante.

Corvus Corax nunca foi um produto de música popular informado pela música medieval academicamente estrita, mas um produto de música acadêmica informado pela energia do rock. A própria estrutura da "performance selvagem" faz sentido acadêmico porque se trata de peças que eram populares em seu tempo, possívelmente recopiladas por algum monge que viu a tanzwut passar.

A tanzwut é a célebre "mania da dança", sobre a qual lemos às vezes. Conta-se que quando a peste negra chegou à Europa, dizimando cidades inteiras, camponeses passaram a abandonar todo o trabalho e dedicar-se a dançar até as últimas energias. Já que a morte era iminente, a única coisa que fazia sentido era dedicar-se a esta festa de contornos existenciais um tanto dark.

Às vezes, quando alguém consegue me arrastar a um baile ou uma dessas festas de boate, tenho a impressão de estar assistindo a uma tanzwut.

Pois bem. Tanzwut, a banda de rock, é precisamente o inverso: euro-metal levemente informado pela música medieval que dezenas de grupos passaram a fazer a partir da repercussão do Corvus Corax. Simultâneamente celebratória e agressiva, a imagem de uma tanzwut parece mesmo justificar a opção pelo tal do "estilo Rammstein". Em si, é um estatuto teórico muito menos interessante. Deformações horríveis de música clássica são feitas por muita gente - inclusive instrumentistas de técnica virtuosística - e não há nisso novidade. O problema do Tanzwut se torna mais interessante, no entanto, por duas pequenas exceções ao modelo ELP-roqueiros-estuprando-os-clássicos.

A primeira é relativamente óbvia: são as mesmas pessoas. É um pouco, forçando muito a analogia, como quando Brubeck ou Stephane Grapelli usam o seu treinamento erudito a favor do jazz. Não ouvi o Tanzwut completo e muito menos tudo que há do Corvus Corax, mas seria um trabalho interessante estudar a auto-referencialidade, as citações que os discos do Tanzwut podem estar fazendo da obra do Corvus Corax. Se eles forem espertos, podem construir ao longo dos discos uma obra fascinante.

A segunda é que Corvus Corax e o subseqüente movimento de música neo-medieval não são precisamente música erudita, tanto por sua falta de erudição, de rigor no sentido da complexa tradição musical européia - mesmo que a pesquisa seja feita de forma rigorosa e as interpretações sejam aproximações inteligentes do espírito da música - como pelos canais e público que acaba atingindo. Toda uma juventude "gótica" se voltou para o medievalismo a partir de Corvus Corax.

Juntemos as duas coisas. Tanzwut parece resultar de um certo desconforto no atrito entre estudos medievais mais estritos e música "comercial", popular, no mesmo sentido que as canções do Corvus Corax podem ter tido na Idade Média. O último disco do Corvus Corax que conheço - embora haja a promessa de continuar gravando como Corvus Corax - chegou a ter uma tentativa constrangedora de crossover, "Mille Anni Passi Sunt". O nome Tanzwut permite fazer música "medieval" para os dias de hoje sem romper com o rigor acadêmico que a maioria dos seguidores do Corvus Corax já abandonou.

Muitas vezes a música que leva o nome de uma banda é o seu maior manifesto - pense "Black Sabbath" - e Tanzwut não quebra a tradição. Em "Tanzwut", a canção, ouvimos guitarras secas, processadas, típicas do Rammstein, e a voz rouca, germânica, berra, militar: "Inter Deum et diabolum semper Musica est".

Quando digo que a crítica de rock pode ser muito mais interessante que a crítica de cinema, I mean it!

10.3.03

Money for nothing

Peter Gabriel, Jaco Pastorius, meninos do Kultivator e do Necronomicon, espalhem por aí que vocês fizeram um ritual vodu pra matar os babões do Limp Bizkit. É sucesso garantido.

8.3.03

Uma confissão




Nunca fui daqueles que realmente se divertem com Ornette Coleman e John Zorn. Nunca gostei de free jazz escorregadio.Tenho um par de gravações ao vivo de Coltrane em "My favorite things" em que a flauta Eric Dolphy se intromete e acaba com todo o clima. Sou fraco. E hardbop-centrista. E penso que Horace Silver é um dos músicos mais injustiçados ever.

Sou forte a ponto de gostar, com sinceridade, da Sagração da Primavera, de momentos selecionados do Merzbow, e das sinfonias de Glenn Branca. Mas sou fraco demais para Ornette Coleman.

Ainda assim, sempre gostei do "Out to lunch" do mesmo Eric Dolphy. Para todos os catálogos, é um disco de free jazz. Tem a flauta giratória de Dolphy em "Gazzeloni", e está pelo geral recheado desses solos-em-tobogã. Sempre me senti feliz de poder apontá-lo como o meu disco de free jazz favorito. Mas, hèlas, uma audição depois de algum tempo de abstinência me faz perceber que é um pouco de cheating.

O segredo da enjoyability ("desfrutabilidade" parece tão sexual...) do "Out to Lunch" é que o único instrumentista a se permitir o luxo do free jazz é o próprio Dolphy. A bateria de Tony Williams é puro groove, complexa sem protagonismo. Lembra muito a banda do Dave Brubeck. O baixo de Richard Davis é esperto ao fazer citações à trajetória do baixo no jazz. O trumpete de Freddie Hubbard é quase tradicional, um hard-bop avançado. E os vibrafones de Bobby Hutcherson parecem estar lá para evitar que um pianista se deixe levar pela tentação de ser um Cecil Taylor. Um piano pode ser percussivo, agressivo, mas Bobby pode apenas ser smooth, acrescentar sabor ao molho jazzístico.

Crossover. Genial, mas crossover. *suspiro*


5.3.03



Os cientistas acreditam que os humanos são o resultado de bilhões de anos de evolução. Não posso explicar toda a teoria da evolução aqui, mas ela pode ser resumida assim:

Teoria da Evolução (Resumo)

Primeiro existiam algumas amebas. Amebas dissidentes se adaptaram melhor ao ambiente, tornando-se assim macacos. E aí veio a Gestão de Qualidade Total.

Estou deixando de lado alguns detalhes, mas a teoria em si também tem alguns furos que é melhor não questionar.

De qualquer forma, levamos muitos anos para chegar a este nível sublime de evolução. Não havia nada de mais neste ritmo descansado porque não tínhamos muito o que fazer, exceto sentar e esperar não ser comido por porcos selvagens. E então alguém caiu em cima de um galho pontudo e estava inventada a lança. Foi aí que começou a confusão.

Eu não estava lá, mas aposto que alguém disse que a lança jamais substituiria as unhas como a melhor ferramenta numa briga. O pessoal do contra xingou os usuários das lanças, chamando-os de "moog" e "blinth". (Isto foi antes de existir a marinha mercante, portando ainda não se sabia xingar muito bem.)

Mas não se falava em "diversidade" naquela época, e acho que o pessoal do "Diga Não Às Lanças" acabou sendo mais "objetivo", se é que você está me acompanhando.

A vantagem da lança é que quase todo mundo era capaz de entendê-la. Tinha uma característica básica: a ponta afiada. Nossos cérebros estavam equipados para este nível de complexidade. E não só os cérebros dos intelectuais - o homem comum também podia entender o que era uma lança. A vida era boa, salvo algumas pragas ocasionais, e o fato de que a expectativa média de vida era de sete anos... e que depois dos quatro você já estava rezando para morrer. Mas quase todo mundo se queixava de como as lanças eram confusas.

De repente (em termos evolucionários), um dissidente chegou e construiu uma prensa tipográfica. Depois disso, foi uma ladeira escorregadia. Duas piscadas mais tarde e estávamos trocando as baterias dos nossos laptops enquanto cruzávamos os céus em objetos metálicos brilhantes onde nos serviam amendoins e refrigerantes.

Culpo o sexo e os jornais pela maioria dos nossos problema hoje em dia. Esta é a minha lógica: só uma pessoa, entre um milhão de outras, é inteligente o bastante para inventar a imprensa. Portanto, quando a sociedade era formada apenas de algumas centenas de pessoas parecidas com macacos morando em cavernas, as chances de uma delas se tornar um gênio eram muito poucas. Mas as pessoas estavam sempre fazendo sexo, e a cada novo débil mental que vinha ao mundo, cresciam as chances de um dissidente sabichão escorregar da rede genética. Quando se tem vários milhões de pessoas correndo por aí e fazendo sexo sem nenhum planejamento, são muitas as chances de que alguma mamãe macaca grávida se agache no meio do mato e coloque para fora um dissidente inventor-de-prensa-tipográfica.

Com as prensas, nosso destino estava traçado. Porque, então, todas as vezes que um novo dissidente esperto tinha uma idéia, ela era anotada e compartilhada com os outros. Todas as boas idéias podiam ser aprimoradas. A civilização explodiu. Nascia a tecnologia. A complexidade da vida cresceu geométricamente. Tudo ficou maior e melhor.

Exceto os nossos cérebros.

Toda a tecnologia que nos cerca, todas as teorias de gerenciamento, os modelos econômicos que prevêem e orientam o nosso comportamento, a ciência que nos ajuda a viver até os oitenta anos - tudo isso é criado por uma porcentagem minúscula de dissidentes espertos. O resto procura se manter à tona da melhor maneira possível. O mundo é complexo demais para nós. A evolução não acompanhou isso. Graças à prensa tipográfica, as pessoas espertas dissidentes conseguiram capturar seus gênios e comunicá-los sem ter que transmití-los genéticamente. A evolução entrou em curto-circuito. Alcançamos o conhecimento e a tecnologia antes da inteligência.

Somos um planeta com aproximadamente seis bilhões de bobos vivendo numa civilziação que foi projetada por uns poucos milhares de dissidentes interessantemente inteligentes.


(Scott Adams, em "O Princípio Dilbert")

28.2.03

Un hermoso repollo de la cigüeña que te trajo de París

Citação literal do Relatório Focus do Bacen:
"Em dezembro de 2002, o conjunto de preços administrados totalizava cerca de 28% do IPCA, refletindo a importância desses bens e serviços na cesta dos consumidores de um a quarenta salários-mínimos."

Quer dizer, descontados os 30% do PIB que o governo absorve, outros 30% são de preços administrados. Isso quer dizer que 50% de toda a produção está posta (artificialmente) fora do alcance da lei da oferta e da demanda, e sujeita aos caprichos administrativos e às mudanças de vento político.

Neoliberalismo? Que neoliberalismo?

26.2.03

Não me orgulho particularmente do resultado do texto, mas há tempos que venho querendo escrever sobre o assunto no blog, e acabou surgindo numa polêmica off-topic sobre mercado de trabalho para humanas numa lista de analistas do mercado financeiro. Na falta de mais vontade e mais tempo, vai para o blog o que escrevi por lá.



Mercado de trabalho é mercado de trabalho. Para começar, depende da performance econômica do país. A situação está difícil até para engenheiro civil com doutorado em materiais no MIT. O que os jornais fazem - e eu vi isso de perto, apesar da minha habilitação ser cinema - é contratar estagiários e botar pra trabalhar. Uma menina que entrou junto comigo foi contratada no segundo período e saiu assinando matéria logo no primeiro mês de estágio. Depois é só demitir e contratar mais estagiários por 400 reais.

Isso - e quase todas as mazelas da universidade brasileira - se devem a uma grande confusão sobre o papel da universidade. Em primeiro lugar, enquanto é conseqüência do passar pela universidade o aprendizado de uma série de ofícios que podem ser oferecidos no mercado de trabalho, não é a função principal da universidade. E isso fica claro no curso de jornalismo, que não ensina jornalismo, mas "ciência da comunicação", o que os americanos chamam de "media studies".

Se você vai olhar o fluxograma de um curso de comunicação, mais de quatro quintos das horas de aula são tomadas por cursos teóricos dessa ciência. Tenho as minhas restrições epistemológicas ao que se ensina por aí, mas é uma ciência humana do mesmo tipo que a sociologia e a antropologia. Mais: como não temos programas específicos em áreas como lingüística, o corpo docente é povoado de figurinhas divertidíssimas de áreas teóricas supostamente interessantes, mas longe da tal "realidade do mercado" que significa um ofício específico (e aliás, muito estreito, se comparado com o de um economista, um engenheiro ou um médico) que as pessoas pensam estar estudando.

Um professor de lingüística já me confessou que as habilitações-ofício do curso de comunícação são uma "isca" para atrair as pessoas para a vida acadêmica, já que "a academia é o telos". O que acaba acontecendo é que, por força da obrigatoriedade do diploma, aspirantes a exercer um ofício simples que podia ser ensinado nos três anos de um segundo grau técnico têm que passar por quatro anos do que é em grande parte um programa de de doutrinação ideológica, uma escola de guerrilheiros midiáticos gramscianos. Não por acaso, a mídia cada vez mais é predominantemente de esquerda. Numa época em que os jovens estão (estamos, embora eu tenha tido um vislumbre do nirvana e pulado fora) suscetíveis a toda experiência de formação filosófica, passam anos a ouvir as maiores patranhas sobre a própria estrutura da realidade social tal como a experimentamos.

Acho que basta dizer que o meu curso de sociologia na faculdade de comunicação ignorou completamente que Weber e Durkheim existem, dedicando meses a fio a desfiar com minúcia as mais obscuras sutilezas das diferentes correntes de pensamento marxista. O pior acontece no período seguinte, quando apresentam Foucault e Deleuze a jovens que não conhecem Platão e Aristóteles. É trágico: uma juventude que conhece superficialmente o chique do pensamento de vanguarda francês sem ter tido contato com as bases mesmas da civil-ização moderna.

Daí você vê um Observatório da Imprensa publicando idiotices sobre a capilaridade do poder.

É claro que a situação é menos extrema em outras áreas. Certamente academia e prática são muito mais próximas na outra área com que tive algum contato, a economia. Enquanto o jornalista vai ouvir no seu primeiro dia de estágio que "na prática a teoria é outra", um economista precisa saber derivar porque precisa saber derivar. E precisa saber muito mais. É por isso que economista nenhum arruma estágio no segundo período e começa atuar direto na ponta do processo produtivo como aconteceu com a amiga minha que mencionei.

O bacharelismo sempre foi uma característica brasileira - o título de doutor sempre foi por excelência a forma de ascensão social. O problema é que a universidade agora é vista como a única forma de aprender um ofício valorizado pelo mercado de trabalho, o que a torna, a fortiori, a única forma de "subir na vida". É ESSA A ORIGEM DE TODOS OS PROBLEMAS DA UNIVERSIDADE BRASILEIRA.

Um exemplo claríssimo é a proliferação dos cursos caça-níqueis. Ora, existe demanda por um curso fajuto de jornalismo na Estácio porque é dificílimo conseguir uma vaga numa boa universidade. 2% dos candidatos ao curso de ciência da comunicação da UFRJ passam; a Mensa aceita pessoas que estejam ente os 2% superiores no seu teste de inteligência. Mas deveriam todos os jornalistas ser gênios?

Daí a polêmica das cotas raciais. A base da argumentação de seus defensores é que não é justo que a universidade, esse passaporte para o reino encantado da classe média, esteja fechada aos negros.

O triste é que pouco mais da metade dos milhares de bacharéis que se formarão nos próximos anos vai acabar em algum lugar que compense a sua rica formação. O que mais se vê é publicitário fazendo bico em telemarketing.

O triste é que a médio prazo o jogo tem soma negativa. Não se trata de academia ou ofício, mas de simbiose academia-ofício ou nada. O triste é que à medida que a universidade se deteriora em ensinadora de ofícios, a produção acadêmica do país tende a desaparecer, e os ofícios passam a ser mal ensinados, o que deterioria o valor do profissional no mercado de trabalho. Sinceramente, se eu fosse de um setor de RH, deixaria de contratar formandos da UERJ a partir da primeira turma da cota racial.

Claro, a solução é dificílima de implantar: cursos técnicos de melhor nível, que ensinem os ofícios específicos demandados pelo mercado. Um economista não deveria estar fazendo pesquisa de preço em supermercado. Se tivéssemos cursos de estatística de nível médio, teríamos faculdades de economia menos lotadas, menos concorrência nas áreas que realmente interessam a quem se dispõe a mourejar por quatro anos extras num curso de economia, melhores oportunidades para aqueles que não desejam passar a juventude estudando, e por último, para as empresas, uma melhor solução para o problema da informação assimétrica na contratação - as empresas não sabem quem são os profissionais de alto nível - o que reduziria para elas a necessidade de coisas não racionais como salário-eficiência, custos de vigilância...

Os austríacos sabiam desde Menger: podemos fazer mil manipulações artificiais tanto do lado monetarista (expandir/contrair a demanda agregada) como do lado "estruturalista" (expandir/contrair a oferta agregada), mas a economia só cresce consistentemente se ganha em eficiência, em produtividade. Ora, ganhamos em eficiência com as revoluções tecnológicas, mas principalmente aumentando a produtividade marginal do trabalho. Para isso, precisamos alocar melhor as pessoas.

Ninguém deveria ser obrigado a ir à universidade. Ninguém deveria estar num quinto período de economia matando aula porque detesta, detesta, detesta, econometria. O chato é que ao virar a mesa você sempre enfia o dedo no olho de alguém. O chato é que é as conseqüências de uma mudança no modelo da educação profissional brasileira são muito mais capilarizadas, e afetam gente muito melhor posicionada políticamente do que, por exemplo, a "classe" dos servidores públicos, que atravanca uma reforma essencial para permitir a queda dos juros, a recuperação da economia, o aumento da oferta de vagas para engenheiros civis...

O chato é que eu não sou o imperador do mundo, e não posso consertar o que está errado para criar a sociedade perfeita. Pelo lado bom, como não sou imperador do mundo, vocês não são obrigados a ouvir Kultivator o dia inteiro, todo dia..

25.2.03

Depois de duas tentativas frustradas, finalmente encontrei um sistema de comentários que funciona. Espero que a minha visitação não volte aos níveis de novembro.

24.2.03

Where do we go, nobody knows. Tenho a sensação de que as coisas estão sendo retiradas de pauta. Li com alguma supresa na Veja sobre os recentes acontecimentos pós-greve na Venezuela. Hoje de manhã, lembrei de abrir o Nota Latina e li que diante dos recentes atentados na Colômbia, discretamente informados depois do futebol, o presidente Pastrana enviou uma carta a vários presidentes latino-americanos que estavam se integrando ao Grupo de Amigos da Venezuela, pedindo que a FARC seja declarada um "grupo terrorista". É claro que o nosso líder operário optou por ignorar o apelo.

Parecia uma grande teoria da conspiração quando Olavo de Carvalho falava das ligações entre o MST e as FARC, não parecia? E vieram as investigações da PF, veio Fernandinho Sea-shore. Depois, veio aquela história do Foro de São Paulo, que ligava irremediávelmente o PT à guerrilha colombiana. Oh!


Eu estou ficando cansado disso. Ontem, conversando com uma menina que vai ser minha caloura na UFF, discutíamos ideais. Na verdade, o assunto começou com este desenho, e as possíveis interpretações da "montanha" do desenho. Quando ela começou a falar sobre "lutar pelos seus ideais", eu entrei no meu modo reacionário. "Cuidado com os ideais, eles aprisionam", etc. etc. etc.

Detesto pensar em mim mesmo como reacionário. De fato, numa sociedade em que o "normal" se tornou o pensamento de esquerda, sou verdadeiramente subversivo ao supor que talvez não devêssemos estar distribuindo esmolas em Guaribas. O fato é que depois de entrar na diatribe reacionária, lembrei que há diferentes tipos de ideais. Alguns, como "justiça social", são realmente complicados e precisam ser muito discutidos. Mas há ideais simples que precisam ser perseguidos.

A saber, liberdade, amor, e matemática.

Esta minha amiga imediatamente disse "liberdade e amor, matemática nunca foi o meu forte". Cada vez me parece mais que a matemática é tão importante na formação do espírito quanto a música e a literatura. Eu certamente deveria ter acrescentado "arte" àquela lista, mas às vezes pareceria que é uma coisa natural que as pessoas enriqueçam as suas vidas com boa música, boa literatura e bom cinema.

E então Sérgio di Biasi me lembra neste artigo que as pessoas vivem de forma muito mais medíocre do que supõem as minhas mais baixas estimativas.

Então chega de política. Mesmo que os hunos cheguem às nossas portas, como aconteceo hoje no Rio. O blog fica sendo sobre liberdade, música, amor e matemática. É claro que não será simples.

Não devo escrever sobre matemática muito em breve, mas chegará o momento em que serei sofisticado o suficiente para comentar sobre o assunto. Só saberia escrever sobre "amor" na forma de auto-comiseração (estrada que não quero tomar), pequenas homilias (nunca!) ou ficção - o que não era bem o objetivo do blog. Falar de liberdade tende a se tornar falar sobre política, que é o que me desanimava em primeiro lugar.

Bem, música. E com o tempo, liberdade, amor e matemática. Wish me luck.


20.2.03

De um texto sobre Nietzche do Olavão:

Um símbolo, por definição, não tem sentido unívoco, podendo sempre transfigurar-se em seu contrário, conforme a esfera de ser a que se aplique num contexto dado. Por isto e só por isto tem força evocativa e geradora, não cabendo aprisionar na moldura de um conceito fixo aquilo que é antes, na feliz expressão de Susanne K. Langer, uma "matriz de intelecções possíveis".


É isso que eu venho tentando dizer, toda vez que entro num ciclo de explicar quais são as minhas diretrizes como crítico de rock. O Olavão disse tudo, e doravante posso me preocupar menos em explicar porque faço o que faço. Valeu, tio.

17.2.03

Soylent Grün ist Menschenfleisch!

Creio entender, ao menos parcialmente, o fundo psicológico de todas as manifestações contra a operação internacional, de caráter bélico, para depor o governo ditatorial de Saddam Hussein. Nem sempre - aliás, quase nunca - as nossas afinidades políticas são organizadas com base em uma análise honesta e razoável do que melhor se adequa aos nossos interesses e o que menos fere os nossos princípios éticos.

O anti-americanismo é, primáriamente, emocional. Tem a ver com um certo complexo de inferioridade, com uma tendência a exteriorizar a culpa de nossos fracassos. Talvez tenha a ver com o tal do ressentimento de que Nietzsche falava. A verdade é que o nordestino que descobriu uma forma de alimentar o gado com cacto moído faz muito mais pelo engrandecimento do país do que todo o discurso anti-americano acumulado desde 1945. Mas produzir é mais difícil que reclamar.

E as posições políticas são empacotadas de forma muito inteligente. A paz contra a guerra, o pequeno líder, amado pelo povo, contra o império do mal. Os americanos são freqüentemente acusados pela academia de serem mestres no uso de uma máquina de propaganda para fabricar consciências, mas mesmo quando aparentemente o fizeram, foram muito ineficientes, por falta de sutiliza ou por excesso dela.

Não digo que o mundo macartista possa não ter existido no solo americano, mas as supostas tentativas de reeducação, de fabricação de consciências tentadas para a América Latina nunca atingiram o grau de verossimilitude que sedimenta as grandes narrativas. Vimos, por um lado, certas tentativas below the belt como a série de filmes do agente 007. Os russos são frios, calculistas, e malvados. Por outro, temos as grandes teorias da conspiração, como o clássico de escola de comunicação "Para ler o Pato Donald".

De um lado, subestimamos a inteligência de bípedes que conseguem andar e subir escadas sozinhos. De outro, superestimamos a validade e a eficácia de teorias psicanalíticas e lingüísticas de fundamentação duvidosa. Santo Cristo, é de pessoas que estamos falando.

E claro, a evidência empírica é que as pessoas estão nas ruas, protestando "contra a guerra" e/ou manifestando-se "a favor da paz".



Algum tempo atrás, li num post da Usenet uma citação sem autor que tornou-se muito urgente, dada a situação. O conteúdo literal me foge, mas a idéia era que a paz não é meramente a ausência de guerras, mas a presença de um sistema que permita a solução dos conflitos sem recurso à guerra.

As coisas estão acontecendo. As resoluções da ONU, organismo a que o discurso anti-americano pretende que os países em conflito se submetam, vem sendo violadas sistemáticamente pelo Iraque. Quantas ogivas precisam ser descobertas antes de que as pessoas tirem as suas máscaras de Darth Vader e percebam o que está acontecendo?

A entrevista de Saddam Hussein à TV inglesa divulgada ontem pela Globo tem um certo ar de canto de vitória do anti-americanismo fácil. Um político inglês, aparentemente ligado ao partido trabalhista, fez cinco ou seis perguntas das mais óbvias ao ditador iraquiano, recebendo as negativas usuais e esperadas. Pareceria até um golpe de propaganda contra Tony Blair.

Foi a primeira vez que Saddam falou ao ocidente em doze anos, e este sujeito se abstém de falar sobre a onipresente máquina de propaganda de Saddam (esta, sim, em todos os lugares), sobre a repressão a qualquer movimento de oposição, sobre o contraste entre a opulência de seus palácios e a situação econômica do país - que é rápidamente atribuída pelo locutor da Globo ao "embargo econômico imposto pela ONU", enfim, sobre o mundo invertido que existe dentro das (coro de professores de relações internacionais: "invioláveis, soberanas") fronteiras do Iraque.

E claro, há o incrível caso do massacre dos curdos. Mas isso os professores de geografia do ensino médio não contam às suas criancinhas. Resta aumentar o volume do disco do Wumpscut.

Es ist Menschenfleisch! Soylent Grün ist ein Produkt aus Menschenfleisch.

11.2.03


"- Fazendo bem as contas - reconhece Juan, amargo - não há nada de brilhante em pertencer à cultura pampeira por culpa de um maldito acaso deomgráfico.

- No fundo o que te importa a cultura a que pertences, se assim como Andrés e muitos outros, criaste a tua própria cultura? Te faz mal a ignorância e o desamparo dos outros, de toda essa gente da Plaza de Mayo?

- Eles sonham e são mais daqui do que nós - afirmou o cronista.

- Não me importo com eles - justificou Juan. - O que me importa são meus atritos com eles. Não me importa que um degenerado, que por ser um degenerado é meu chefe no escritório, meta os dedos nos bolsos do colete e digam que deveriam capar o Picasso. O que me emputece é que um ministro diga que o surrealismo é

      mas para que continuar
      para que
      Me emputece não poder conviver, compreende?

Não-poder-con-viver. E esse já não é um assunto de cultura intelectual, de se Braque ou Matisse ou os doze tons ou os genes ou a arquimedusa. Isso é coisa de pele e sangue. Vou te dizer uma coisa horrível, cronista. Vou te dizer que cada vez que vejo um cabelo negro, liso, de índio, uma pele escura, uma toada provinciana,
      me dá asco.
      E cada vez que vejo um portenho metido a besta, me dá nojo. E as grã-finas me causam asco. E esses funcionários públicos inconfundíveis, esses pridutos da cidaed com seu topete e a sua elegânica de merda me dão nojo.

- Já entendemos - declarou Clara. - Daqui a pouco vai sobrar para nós também.

- Não - justificou Juan. - Os que são como nós me dão pena."

(Julio Cortázar, "O Exame Final" - tradução de El Examen de Fausto Wolff)

9.2.03

Apesar da imaturidade com que o Ritchie Blackmore se comporta, "Stargazer", do Rainbow, é uma das mais bonitas canções de power-metal que conheço. A bateria carrega de forma criativa a levada marcial da música, as tecladeiras têm o efeito dramático perfeito, e apesar do solo incrívelmente masturbatório do Blackmore, o todo é salvo pelo Ronnie James Dio, numa de suas performances mais comovedoras.

I see your rainbow rising...
... look there on the horizon...


Não consigo ouvir "Stargazer" sem ficar com um nó na garganta. Talvez porque tenha tanto a ver com a minha própria história filosófica. A letra, que narra em primeira pessoa a história de pessoas que acreditam cegamente em um bruxo que está construindo uma torre, é um libelo contra a opressão. É do tipo de coisa que faz falta na nossa música esses dias...

6.2.03

Don't believe the hype

Você não precisa acreditar no Márcio Moreira Alves, nas entrevistas do Mercadante à Caros Amigos, ou mesmo nos recortes potencialmente geradores de distorção do Palocci.

O IPEA mantém um site com uma base de dados macroeconômicos fabulosa. É um site sofisticadíssimo, que exibe e permite manipulações básicas com dados de dezenas de fontes brasileiras e internacionais.

Agora você já sabe: toda vez que desconfiar de um número em um artigo, o oráculo está em ipeadata.gov.br.

4.2.03

Feitos os comentários abaixo, é bom que não reste dúvida: todo apoio a Sandro Guidalli!

Protestos podem ser enviados para comunique-se@comunique-se.com.br.

O assunto de hoje é espinhoso. A situação induziu-me a tentar esboçar algumas críticas construtivas a gente que apóio, e que escreve muito mais e muito melhor do que eu - às vezes sem a menor base de comparação. Mas talvez por ser recente, ainda, o meu passado esquerdinha, enxergue uma ou duas coisas que podem ter se perdido na velha armadilha da gestalt.

O motivador da diatribe foi a notícia de que Sandro Guidalli foi defenestrado do portal Comunique-se.

Surpreendeu-me bastante quando soube que Guidalli estava escrevendo para um meio relativamente mainstream - pelo menos no contexto da pequena comunidade pensante que se preocupa com questões de mídia e representação e usa a Internet regularmente com tais fins intelectuais. A verdade é que a tal direita está exilada em blogs e sites específicos, em geral antipáticos, como o MSM.

Tão sagrado quanto o direito à livre expressão é o direito à antipatia. Talvez Guidalli tenha sido antipático no Comunique-se. O próprio mentor intelectual da turma, Olavo de Carvalho freqüentemente o é. Filósofo no sentido mais profundo do termo, de uma forma que a Chauí e o Konder jamais serão, é rara a coluna desta figura que não traz algo de suma importância para a reflexão sobre os temas brasileiros. Mas às vezes é difícil apoiar Olavo.

Incondicional admirador, esta semana senti-me constrangido em referir alguns colegas à sua coluna n'O Globo. Olavo de Carvalho se torna antipático ao adicionar a uma narrativa que já é bastante carregada no tom militante uma sidenote supérflua em que se queixa das blasfêmias sofridas por "Nosso Senhor Jesus Cristo" (sic).

Não discordo de todo da queixa. Aprendi a admirar a Igreja Católica e o incrívelmente complexo sistema da religião, mas o caso da blasfêmia precisa ser defendido com cuidado. Quase que por definição, e com tão raras exceções que justificam um comentário como este, o público em potencial de um autor mais sofisticado como Olavo de Carvalho é secularista.

Ora, o secularismo militante é tão imaturo quanto o igualitarismo de centro estudantil, e é preciso admitir que a doutrina social da Igreja é uma das formas mais aceitáveis de socialismo ao pregar, no princípio da subsidiariedade, uma maior independência de instâncias menores em relação a um Planejamento Central acachapante. Os recentes comentários de D. Mauro Morelli sobre o Fome Zero ilustram bem essa diferença de tom entre um socialismo estatista e um socialismo subsidiário.

O ponto é que Olavo de Carvalho contamina da aversão secularista a essa militância religiosa o resto do seu ponto, cada vez mais aceito, de que o narcotráfico tem ligações políticas no mínimo muito complicadas. Sempre que indico um texto de Olavo de Carvalho a alguém, preciso cercar-me de preliminares. E nem sempre é fácil de explicar que as críticas que ele faz às políticas de representação do políticamente correto são válidas mesmo que descontemos as suas ocasionais metamorfoses em um doudo homófobico mais comumente encontrado em borracharias e estações de troca de autopeças.

Não pretendo negar a Olavo de Carvalho, pensador provávelmente maior do que jamais serei, o inalienável direito da antipatia. Mas me parece um grande erro de estratégia. É difícil separar pessoa e argumento para quem foi educado na paranóia do quo bono - e quem não ouviu ainda que o que o Washington Times publica é desprovido de valor porque o Rev. Moon está entre seus acionistas não está acompanhando as discussões direito.

Por esse estranho método crítico, a síndrome de Estocolmo é uma das formas mais sinceras e válidas de rebelião, posto que não tem segundas intenções. Por outro lado, visto que a iminente guerra com o Iraque tem questionáveis segundos propósitos comerciais, passa a ser patentemente falsa a ameaça concreta que representam os arsenais de armas químicas de Saddam Hussein. É até um pouco ridículo, mas é a lógica dos pequenos círculos pensantes que são mesmo marginalmente capazes de entender Olavo de Carvalho.

Dada essa forma tortuosa de pensar, a cadeia se fecha: Olavo de Carvalho critica o políticamente correto porque é homofóbico. São contadas as pessoas que chegam a perceber a sutileza de que, apesar de (aparentemente) homofóbico, Olavo pode ainda estar certo. Às vezes, as coisas precisam ser entregues ao leitor a medio masticar. Quem não acompanha de perto, vê em Olavo de Carvalho um lunático retrógrado presa de uma incrível paranóia anticomunista. Dizem que muitos grandes gênios acabam alienando conscientemente o seu público (e o rock está cheio desses casos), mas às vezes Olavo de Carvalho torna a causa liberal muito mais difícil de defender.

A antipatia é um erro de estratégia.

Ontem, estava lendo um texto de um colega esquerdinha da escola de comunicação onde estudei. Ele se queixava amargamente dos políticos, da corrupção na vida pública, da cegueira do esquerdismo estreito e da capilarização da corrupção a partir de um planejamento central ineficiente. Este meu amigo havia decidido fazer um documentário sobre o FSM. Quando descobriu - e sabotou - alguma armação do DCE com os motoristas de ônibus, teve o seu documentário sabotado, as fitas roubadas, e através de um golpe de mestre que só se aprende na escola de politicagem do movimento estudantil, acusado de conspiração.

Chegou a um ponto que disse algo do gênero "pronto, não voto mais. Política é uma coisa muito sangrenta". A única coisa que pude responder foi "parabéns, você descobriu o liberalismo". Mas não, "liberalismo" é o que doudos homofóbicos como o Olavo de Carvalho e anticomunas paranóicos como os meninos do MSM pregam. Essas pessoas estão muito próximas de ver a luz, mas o método do quo bono as mantém presas neste limbo político.

São estas pessoas que a "direita" liberal precisa cooptar.



A ousadia de criticar Olavo de Carvalho me deixa pisando em ovos, mas talvez tenha conseguido servir de autocrítica coletiva. Porque depois do Olavo de Carvalho estão pessoas como Evandro Ferreira, Sandro Guidalli e Álvaro Velloso de Carvalho - e depois destes, estamos dezenas e dezenas de pequenos blogueiros de viés liberal. Uma dúzia de trutas de rio no meio do oceano, mas há coisas que precisam ser ditas.

Ou talvez tenha sido um incrível acesso de arrogância. Não por acaso, meu nickname no ICQ é "Hybris".

3.2.03

Em português, "anacoluto" se refere ao vício lingüístico que todos estudamos. Aparentemente, há quem se refira ao anacoluto como "figura de estilo", principalmente pelo seu uso em Camões, mas em geral a profusão de anacolutos revela a incapacidade de formar frases gramáticalmente consistente. O clássico exemplo é "quem come direto da panela, chove no dia do casamento".

O termo vem do grego anakólouthos, que significa, estritamente, "não é o seguimento de" - isto é, non sequitur. Achei que descobririam rápidamente o meu propósito, mas fui obscuro demais. O mistério está revelado.

31.1.03

A ideologia é um verniz que torna as convicções impermeáveis à lógica. É essa característica de imiscibilidade que faz com que política seja tão tabu quanto religião em conversas amenas em sociedade - aquele bate-papo na piscina, no domingão de sol. No máximo, são permitidos algumas queixas sobre a falta de moralidade na vida pública do cenário brasileiro. A conseqüência lógica de afirmar que os políticos são corruptos é dizer que os políticos deveriam ter menos poder.

Mas não! Alguns dos nossos melhores amigos são petistas. Um terço dos brasileiros o são. O que exatamente ganhamos criando polêmica? Não, o que precisamos é de políticos melhores. *rimshot*

A lógica matemática é diferente da lógica política. Não é possível, em política, demonstrar a verdade de um juízo. Não sendo um domínio binário, não se aplica a tais temas nem mesmo a estratégia matemática de reduzir a idéia oposta ao absurdo. A idéia oposta nunca é apenas uma, e nunca é justo que se dê ao opositor de uma idéia o privilégio de definí-la. Mas é possível, sim, em alguns casos, demonstrar a patente falsidade de um determinado juízo examinando sua consistência interna. Em matemática, alguns juízos sem sentido são verdadeiros por vacuidade ("Todos os números primos pares maiores que 10 são divisíveis por 7"). Não é o que acontece em política: se um sistema não é consistente, não estamos autorizados a falar em divisibilidade.

Um dos erros comuns ao discutir política é julgar as convicções do outro nos termos das nossas próprias premissas. Só há duas formas de refutar uma afirmação política: derrubar alguma das premissas essenciais do pensamento político do outro, ou mostrar que das premissas apresentadas não seguem as conclusões que se afirma.

Isso explica a esterilidade dos debates "contra a ALCA" e dos Fóruns "Sociais". A antiga maldição nos roga que vivamos em tempos interessantes, e tanto são os nossos que vemos Lula em Davos e um dos maiores especuladores do mundo cantando de tenor no coro dos contentes. Mas a mera idéia de ver um Gustavo Franco em Porto Alegre é inconcebível. Lá fosse, não conseguiria expor uma idéia completa que coubesse na cabeça dos esquerdinhas.

Embora eu tenha topado com um sem-número de pessoas intelectualmente desonestas, a maior parte das pessoas patentemente equivocadas que conheci eram incapazes de enxergar a osteoporose do sistema que defendiam. Pior, pessoas inteligentes, conscientes da importância da consistência interna de um argumento, e cujas posições nem sempre eram as mais absurdas - é razoável defender o desenvolvimentismo cepalino, mas jamais defender o regime talibã - sempre caem no mesmo circuito que se reforça circularmente.

Típica narrativa: desenvolvimentistas criticam liberais pela falta de um "projeto estratégico de longo prazo" em seu programa. Criticar um liberal por não pregar estratégias únicas nacionais é como criticar um violinista por usar um arco, e não uma palheta de guitarra. Se queremos refutar a tese liberal, é preciso examinar as premissas do pensamento liberal, e refutá-las. Ou tentar mostrar que dessas premissas não segue a tese que se defende.

Hayek e von Mises foram muito mais maduros intelectualmente do que jamais seremos eu ou qualquer dos esquerdinhas que gafanhotam no Acampamento da Juventude. É muito pouco provável que encontremos indícios de osteoporose em seu sistema. Mas um esquerdinha pode se dedicar a estudar as premissas do liberalismo e tentar refutá-las. E eu posso tentar defendê-las. Isso se chama debate. O que é completamente estéril é dizer que "esse sistema gera desigualdade", e que isso é um problema sério. Ora, e quem disse que a desigualdade é, necessáriamente uma coisa ruim? De que desigualdade estamos falando? (Nozick, Nozick, Nozick).

E pior, quem disse que o igualitarismo é uma alternativa melhor?

É isso que faz com que nosso amigo Grzybowksi chegue à conclusão de que "o neoliberalismo está deslegitimado". Na sua cabeça, o liberalismo não faz sentido porque não se encaixa nas premissas do socialismo. Não é incrível?

Talvez eu seja culpado do mesmo crime. Tento, com sinceridade, não ser ilógico. Pelo menos no que os meus limites me permitem. Espero estar conseguindo. Afinal, há muito tempo digo que é possível ser lógico e antiético, mas ser ilógico sempre implica em ser antiético.

30.1.03

Gerador de textos do Jorge Amado.

27.1.03

É de bom-tom não gostar de lugares-comuns. Com efeito, detestá-los é quase tão importante quanto saber a forma plural correta de "lugares-comuns". Talvez estejamos sendo lentamente envenenados pelo fascismo da originalidade. Alguns clichês são muito interessantes e muito úteis, e embora não se pretenda literarizar uma enumeração deles, talvez um pouco de senso comum não faça tão mal.

Ou talvez eu esteja emocionalmente vulnerável hoje. Mas, ao ponto. Um dos clicados que irritam é o famigerado "a economia é uma ciência social".

Ora, o contato que eu tive com as ciências sociais própriamente ditas - a sociologia, a antropologia, a ciência política - me trouxeram o sabor de um exercício intelectual amorfo e fascinante, em perpétua busca de seu próprio estatuto. Ainda aprecio muito as leituras de antropologia (o "Tristes Trópicos" de Levi-Strauss, "Os Moleques de Bogotá" de Jacques Meunier) mais pela sua incerteza de quase-ciência em busca de afirmação, pela constante rediscussão dos próprios limites, dos próprios objetivos, do próprio papel. "Tristes Trópicos" não como tratado de etnologia, mas como épico sobre a própria etnologia, ou como narrativa da angústia do próprio Levi-Strauss como lúmpen-intelectual sem saber direito qual é o seu lugar no mundo:

"Faltam-me aptidões para guardar prudentemente em cultivo um domínio de que ano por ano eu recolhesse as messes: tenho uma inteligência neolítica. Como as queimadas indígenas, ela abrasa, por vezes, solos inexplorados; fecunda-os, talvez, para dêles tirar apressadamente alguns frutos e deixar atrás de si um território devastado. Mas naquele tempo eu não podia ter consciência dessas motivações profundas.


Aprendi da antropologia - ou do meu contato neolítico com ela - a minha perspectiva de análise sobre cultura. Escrevo sobre rock porque é um fenômeno cultural fascinante, gotejando de significados a cada segundo, a cada nota. Coldplay só faz sentido em relação a Radiohead que só faz sentido em relação a My Bloody Valentine que só faz sentido em relação ao The Clash que só faz sentido em relação a The Who. É um sistema de complexidade aparentemente infinita. E pra ficarmos ainda no "Tristes Trópicos",

"A humanidade se instala na monocultura: ela se prepara a produzir a civilização em massa como a beterraba. Seu trivial só apresentará esse prato"

Somos uma sociedade produtora de cultura, e embora tenha alguma aspiração a ciência, a objetividade, a antropologia e a ciência política entendem bem que, no fim, não só o seu objeto como o seu próprio corpo é um objeto cultural, portador de significados. E a economia?

Atribui-se a Paul Krugman a velha piadinha do economista indiano: se acumular karma bom nesta vida através das boas obras, nascerá físico na próxima; se acumular karma ruim, nascerá sociólogo.

Ora, os métodos da economia estão muito mais próximos da modelagem objetiva da física do que do divagar auto-construtor da antropologia. É claro que as premissas fundamentais da física são estabelecidos empíricamente, enquanto a economia parte de pressupostos simplificados que podem ser colocados na conta de leituras parciais, culturalistas e portanto antropológicas. E como o próprio Krugman tenta explicar, a teoria keynesiana ocidental não parece surtir muito efeito no Japão.

Ainda assim, a modelagem econômica assemelha-se mais a uma certa física teórica que parte de premissas abstratas para tirar conclusões contra-sensuais. A literatura explicita pelo menos dois pontos em comuns muito fortes - dados empíricos caros e teoria barata.

Mas a economia - a ciência econômica - está sempre sendo sujeita aos constrangimentos da política, algo de que a física teórica não pode se queixar. Por mais sangrenta que se torne a discussão acadêmica entre, digamos, as hipóteses dicotômicas do universo estacionário e da expansão cíclica, a física não sofre a pressão da política extra-acadêmica.

Por sorte, não estamos sozinhos. A recente discussão sobre o efeito-estufa dá aos metereologistas uma vaga idéia da frustração de ver formulações puramente científicas submetidas à ordem de suas conseqüências políticas. Há uma boa possibilidade, sustentada por cientistas sérios fundamentados em dados empíricos sólidos de que o tal aquecimento global causado pela poluição não esteja acontecendo de todo.

Na verdade, a discussão toda é um pouco complexa demais para ser discutida por leigos em botequins. Mas decisões muito importantes sobre a própria forma como compreendemos a natureza do fenômeno climático estão sendo tomadas por razões políticas. E isso é muito, muito sangrento.

Essa ingerência política é uma constante na ciência econômica.

E ver o Márcio Moreira Alves regurgitando sobre fuga de divisas baseado no que entendeu de Mundell-Fleming no botequim é muito, muito sangrento.

De modo geral, toda a discussão sobre contas externas recebe um peso desproporcional, e perde completamente o sentido se vista fora de um modelo macroeconômico mais abrangente. Mas se as circunstâncias políticas o exigem, podemos dar o peso que quisermos ao que quisermos. Talvez sejamos culpados, por exemplo, de superestimar os custos sociais da inflação.

Tenho a sensação de que o novo governo é culpado de superestimar o valor do planejamento econômico. Fica o sabor de mais politização na pouca esperança de tecnicismo que nos resta.

Um hayekiano diria que estou sendo imaturo nessa dialética toda. Tento, com sinceridade, não ser sectário. Uma parcela grande demais da cena blogueira de direita é dogmáticamente austríaca. Fui aos poucos flutuando para a direita porque passei a acreditar na espontaneidade, no poder subversivo do inesperado. Há uma certa microeconomia marginalista a favor dessa sensação política, e uma certa macroeconomia "estruturalista" contra isso. Não sei. Não tenho nem certeza de que uma sociedade mais justa seja necessáriamente uma sociedade mais igualitária.

Sei que me incomoda quando delega-se a um grupo o poder de mudar a própria essência do jogo. Mesmo com o apoio da maioria, o planejamento industrial, a imposição de prioridades, a macroeconomia estruturalista uspiana me incomoda porque representa a politização da existência, o diminuir do indivíduo.

E depois dizem que vivemos num mundo muito individualista, e seilámaisoque. Antigamente, parte da diatribe da esquerda falava da excessiva massificação promovida pelo capitalismo. Fui de esquerda por ódio à música de massas. Hoje, a diatribe da esquerda fala do excessivo individualismo promovido pelo capitalismo. Será que é porque a massificação que a própria dialética interna do planejamento central se tornou óbvia?

Puxa, "dialética do planejamento". Como vamos longe. Uma engenharia social por um lado lê as necessidades da sociedade, mas por outro lado molda essa mesma sociedade para que as engrenagens encaixem. Adaptar-se e adaptar. Oh, Guido Mantega, capta a essência dessas coisinhas...

23.1.03

OH!



22.1.03

Yay!

O novo disco do Portishead, Alien sairá dia 25 de março.

O informe é do phead int.

20.1.03

Só para confirmar - ou melhor, para firmar através da repetição: os Corvus Corax são mesmo os verdadeiros salvadores do rock.

15.1.03

O novo disco da Beth Gibbons é uma reivindicação do direito à melancolia. Numa sociedade festiva em que tudo é empurrado para o celebratório, basta uma certa aura pós-modernosa, umas letrinhas meio edithpiafianas, de uma tristeza desmesurada, beirando o mau gosto, para termos um disco perfeito, subversivo, revolucionário. Pelo direito à melancolia. A constante busca da produtividade requer uma atitude power-metal, mas isso é exaustivo. Como a chuva, como o Lula, como a estilística esquerdismo-bichogrilo, ou por outra, pelo tefepismo sem arrependimentos de parte da nossa direita mais vocal. Pelo direito à melancolia!

Farei um banner sobre isso.


Prick your finger
it is done
the moon has now eclipsed the sun
angel has spread its wings
the time has come for bitter things


Só mesmo o Lula para tornar uma citação do Marilyn Manson relevante. E, a tudo isto, onde estão os Casseta & Planeta? Tempos estranhos precisam de uma catarse de paródias....Penso no Bussunda fazendo sua Excelência, e no Hélio fazendo o Gil...

Ou será que eles também fazem parte da fabulosa conspiração esquerdista?

10.1.03

O papa é poeta. O mundo está cheio de surpresas...

Dizem que o Bill Ward, baterista durante todo o período clássico do Black Sabbath, era o substituto perfeito para o Ozzy. Parece que baseiam-se em seu disco solo, que ainda não consegui ouvir. E embora o trabalho do Dio seja muito bonito em discos como "Holy Diver", nunca me convenceu o que ele fez com o Sabbath. Talvez por causa da horrorosa produção feita pelo Martin Birch. Apesar de muito experiente, responsável por grandes discos do Deep Purple, ele havia acabado de gravar o primeiro disco do Iron Maiden e trouxe um som muito parecido, completamente incompatível com o Sabbath.

Mas a faixa cujos vocais mais me impressionam é "When death calls". Com Tony Martin. Nem sempre o nosso calor de sambista permite apreciar própriamente certo tipo de música, mas hoje tive uma pequena epifania metaleira às seis e meia da manhã, quando havia neblina, o sol estava avermelhado, e o mundo estava se permitindo ser apenas um pouco melancólico....

4.1.03

Os dez eventos musicais mais interessantes que não acontecerão em 2003

10. Herbert "o calibre do perigo" Vianna não dará entrevista ressaltando a importância do Univers Zero para o amadurecimento do rock.

9. O ministro Gilberto "a novidade veio da praia" Gil não dará verbas para bandas de rock instrumental que tenham o Univers Zero entre suas referências musicais.

8. A Orquestra Sinfônica Brasileira continuará sem tomar conhecimento da vitalidade do repertório do Univers Zero, e continuará tocando "Aquarela Brasileira" e "Also Sprach Zarathustra" (também conhecida como "música do filme 2001").

7. Cameron Crowe não fará um filme sobre bandas de rock instrumentais do fim da década de 70, protagonizado por um jovem oboísta e inspirado claramente na história do Univers Zero.

6. Johnny "Rotten" Lydon não reconhecerá a precedência do Univers Zero no campo da agressividade brutal sem compromissos comerciais.

5. A MTV não fará um "Especial Univers Zero".

4. A MTV não fará um "Univers Zero MTV ao Vivo".

3. A MTV não fará um "Univers Zero acústico".

2. O Univers Zero não fará um show para 50 mil pessoas no Maracanã

1. O Univers Zero não tocará no reveillon de Copacabana. Mais um ano se passará sem que os brasileiros tomem conhecimento do Univers Zero. E continuaremos sendo subdesenvolvidos.


2.1.03

Tem horas que olho pra cara da conjuntura, a conjuntura olha pra minha cara, e nós dois estamos morrendo de vontade de não escrever coisa nenhuma sobre a espermátide do noticiário. É o que dizia o grande filósofo Cabelo Argentino:

"Etc, etc."



Começou quando topei com o Fidel na TV. 31 à noite, não sei se antes ou depois de inaugurar 2003 na praia. Ato reflexo, estou de joelhos. Something wicked comes this way.

Sei que a festa da posse significou muita coisa. Significou muita coisa no sentido de carregar muitos significados mesmo. Há a primeira leitura, saída direto de uma seqüência cortada de um roteiro para a série de filmes Porky's: deste lado, os Rituais do Poder - o novo Presidente é conduzido por uma Tropa centenária com cavalos brancos, uniformes lin-dos e um nome imponente do gênero "Cavaleiros da Ordem do Dragão da Independência". Daquele, as multidões que querem tocar o Mahatma Silva, que se jogam sobre seu pescoço, invadem o espelho-d'água Ganges para vê-lo de perto. Os protocolos estão sendo quebrados. E tudo é festa!

É curioso (ou não, a crer nos hermanitos do MSM) que a leitura reacionária tenha sido suprimida. O sentido do abuso, da desordem, do susto, do pânico, do descontrole. São dois pólos igualmente imaturos e/ou saídos diretamente do livro. Incomoda que um tenha sido suprimido, no entanto. Onde a interpretação festiva vê uma grande expressão simbólica do significado último de democracia - o povo que invade a Praça dos (não um, não dois, mas) Três Poderes - a visão reacionária leria algo acintoso, não muito diferente de um estupro: o belo ritual, os belos cavalos brancos, o sentido mesmo de formalidade do ritual do poder sendo solenemente jogado no lixo pela espontaneidade populista de quem prefere Gil a Morelenbaum. This shade of autumn's stale bitter end.

Onde estão os reacionários? Onde os escondem?

No dia seguinte, Ciro dá o calote. Os símbolos estão por toda parte - Chávez, Fidel, almoço, Palocci que lembra Ruy Barbosa que lembra encilhamento - mas a rapidez dos acontecimentos parece tirar-me o direito de continuar a preocupação com símbolos.

With western eyes and serpent's breath
We lay our own conscience to rest
I feel so cold on hookers and gin
.... this mess we're in...

31.12.02

Estou ficando viciado nesses penduricalhos de blogs. Outro dia, vi alguém com uma previsão do tempo in-line, mas desisti de copiar a tempo de não terminar de estragar meu desáine. Pelo menos consegui deixar de fazer testes.

Em todo caso, esse BlogTree é legal. Bem menos picareta que aquele blogchalk, que é só um caça-hits. O trocinho de em-que-humor-estou do iEu é de gosto muito duvidoso, e pior, confirma a previsão que fiz no meu manifesto anti-blog de dois anos atrás de que em breve, o sistema de blogs nos pouparia o trabalho de escrever, já que vivemos dentro de moldes pré-definidos, através de menus de pull-down. Talvez eu o tire daí em alguns dias.

Ou talvez eu tenha me rendido.

É hora de escrever de novo. Sobre língua e nacionalismo. Em parte como reação a comentários no último Observatório da Imprensa, mas também como resposta, sempre adiada, a algumas críticas que há muito me fazem.

Sim, eu sou um pouco culpado. Optei inúmeras vezes por "esquinas rítmicas" como I mean para não quebrar o fluxo do texto. Sim, é um pouco de preguiça - de procurar expressões do vernáculo que se encaixem na sucessão de idéias no tempo da leitura. "Quero dizer" não é um "lick lingüístico", não é uma esquina cuja primeira leitura seja a de um mero conectivo entre uma idéia e uma explicação mais extensa dela. E "quer dizer", que andei tentando usar em vez de I mean é gramaticalmente horrenda.

O que se supõe que devo fazer?

Feita a confissão, é importante nunca perder de vista o postulado de que idiomas não são externos ao homem. Não são uma parte da physis que experimentamos, mas uma parte da nomos que codificamos ativamente o tempo inteiro. Idiomas mudam. É apenas lógico que à medida que a cultura que experimentamos se sofistica, haja a interpenetração dos códigos. Ei, não me venham dizer que os americanos não fazem o mesmo.

Onde nós usamos o termo "feeling", em inglês, os americanos usam "gusto". Em espanhol.

Por momentos, acho que a tarefa toda está um pouco acima das minhas possibilidades. Para ser um bom economista, devo adquirir uma razoável sofisticação em matemática. Não sei bem por onde começar, mas consigo escrever e pensar sobre economia, se bem que superficialmente, alheio ao axioma da indução finita de Peano. Mas para escrever e pensar sobre economia, let alone (ai, ai) sobre cinema, preciso exercer uma sofisticação lingüística que às vezes é muito mais cômodo eludir.

No meio de um documentário sobre Darwin, alguém - um premiado Pulitzer - disse que embora nossos idiomas modernos tenham 40 mil palavras, não usamos mais do que 4 ou 5 mil na linguagem coloquial. Isso é deprimente. Deprimente porque certamente todo o palavrório extra dá acesso a uma maior precisão - ou por outra, uma maior ambigüidade, quando é o que nos interessa - no falar, quando não a um fluxo suave, mais elegante, em que os advérbios formam bolhas na superfície como as pedras no rio.

Diante dos objetivos maiores da precisão (ou ambigüidade, porque escrever é um jogo de espelhos), fluxo, sentido e estilo, ideais como nacionalismo lingüístico são como o problema do colesterol quando somos, antes de tudo, animais carnívoros. Náufragos no meio do mar, que nos importa se não escovamos os dentes hoje?

29.12.02

Voltando com coisas menos pretensiosas. Pelo menos por enquanto.

Previsão do tempo para o Rio

26.12.02

O Anacoluto está entrando em recesso até segunda-feira, devido a uma viagem.

24.12.02

Puxa, eu deveria deixar uma mensagem de Natal.

Bem. Feliz.

23.12.02

A primeira missão do ministro da Segurança Alimentar é cuidar dessa minha barriga que insiste em crescer.

21.12.02

Sempre acabo correndo riscos inacreditáveis escrevendo sobre as coisas que estão na borda da minha mente, em vez de divagar com uma dose saudável de auto-percepção sobre coisas certas e - vistas do meu lado - óbvias. Pode-se ir muito longe dizendo coisas óbvias aos que não percebem tão óbviamente assim. Em vez disso, arrisco falar sobre assuntos complicados e ser deixado de lado tanto por aqueles que conhecem a fundo esses assuntos como pelos que não vêem nem mesmo as coisas que são as mais óbvias pra mim. Não escrevo para convencer ou impressionar - escrevo como exercício de pensamento, e I don't give a fuck anyway.

O texto sobre verdade que acabo de postar é um grande exemplo disso.

A escola de comunicação da UFF sempre se empenhou em transmitir um vago relativismo gnoseológico, sofisticado até o infinito pelas mais diferentes perspectivas (sociologia, antropologia, lingüística), mas em essência um vago relativismo. Conceitos típicos são, por exemplo, "processo de subjetividade" ou "historicidade dos significados". Duas frases muito representativas são "Vemos o mundo através de filtros que são históricos" e (supremo non sequitur) "A emergência das ciências humanas é vinculada às estratégias de produção do capitalismo novecentista".

O "senso crítico" da comunicologia é, portanto, essencialmente um conjunto de versões sofisticadas do velho argumento ad hominem. O discurso, o argumento são vinculados a quem os produz e logo ao porquê de serem produzidos. Lembro de, já no processo de acordar desse sono relativista induzido, algumas conversas com as pessoas da UFF. Não eram debates, própriamente, mas exercícios amorfos de soul searching. Nesses últimos meses, passou a preocupar-me o problema de achar razões válidas para a ação política - ou seja, razões extra-ideológicas.

Lembro de uma frase em particular. "A minha professora de Análise do Discurso disse que há ideologia implícita em todo juízo". Mais do que mero relativismo metafísico, essa idéia introduz uma paralisante paranóia do quo bono sobre toda atividade intelectual. Estamos, na verdade, substituindo o simplismo monista da verdade-única pelo simplismo porra-louca do tudo-depende.

Na verdade, tudo depende mesmo, mas isso não significa que não exista conhecimento, não exista cultura, não exista civilização. Fiquei paralisado nessa dicotomia por muito tempo. O relativismo é uma conclusão racional, mas é também um declive escorregadio para a irracionalidade, à barbárie. E claro, o monismo racionalista é completamente irracional, tem inúmeros problemas.

Tudo aqui horrívelmente simplificado, é claro. Tudo tem suas nuances. O objetivo desta narrativa toda é falar do ovo de Colombo. Recebi um e-mail de um amigo inteligente com algumas divagações sobre a verdade, sobre a produção de verdade, sobre a natureza da verdade. O que respondi segue, um pouco modificado.

Uma das coisas mais importantes que já aprendi é a separar premissas e conclusões.

Uma forma muito cômoda de estudar economia seria um intelectualismo veloz à francesa. Alunos de esquerda questionariam o modelo neoclássico porque supõe que já existem plenamente racionalidade e igualdade política e competiçào perfeita, e portanto seriam espertos, teriam senso crítico.

O que vi na PUC é diferente. A PUC tem dois tipos de alunos, competentes e incompetentes. Todos ficam sabendo desde o início que são modelos, modelos baseados em premissas e que levam a conclusões. Discordar das premissas não faculta o direito de ignorar o modelo.

Essa perspectiva, esse modo de se aproximar de um problema é muito, muito poderoso. Revejo agora as discussões, os problemas, os debates da UFF espalhados desordenadamente pelos meus cadernos, e tenho vontade de modelá-los como se faz modelos em economia.

Resolve o duplo problema da politização versus dogmatismo. E permite restaurar o gosto pela lógica nos assuntos cinzentos. Sim, tudo isto é um pouco óbvio, mas passar a pensar o mundo dessa forma é um grande salto. Um grande salto.

17.12.02

Na sabatina ao futuro presidente do Bacen, o senador Geraldo Althoff cometeu o ato falho do ano: "O ministro da Falência, Antonio Palocci..."

14.12.02

Eu deveria começar com um meta-comentário sobre rótulos. Direita, esquerda, direita, esquerda, meia-volta, vollllllver!

Gosto do capitalismo. Gosto de ir ao supermercado e escolher os meus próprios pãezinhos franceses com uma pinça. Gosto de passar meses sem ouvir nada do que o governo gostaria que fosse a cultura nacional. Gosto do individualismo. Gosto de estar cercado de pessoas que são indivíduos, e que não dão a mínima para o que sir Arthur McBradley acha que é o problema do Brasil. Gosto da cultura de consumo. É verdade que a cultura de consumo promove o uso de guarda-chuvas verdes, de pésismo gosto, além de starlets musicais que usam playback, mas é a mesma cultura que me permite colocar o meu rico dinheirinho em discos do The Sea and Cake e do Anglagard, e não da Kelly Key. Gosto dos argumentos de microeconomia walrasiana para o liberalismo - a maximização do excedente social, essas coisinhas. Gosto dos argumentos da escola austríaca para o liberalismo. Gosto de Hayek, elegante como só podem ser elegantes um mosquito, um filósofo ou uma bailarina. Gosto das letras do Rush que falam de liberalismo. What you own is your own kingdom, what you do is your own glory, what you love is your own power, what you live is your own story. Gosto de como qualquer mané com trezentos reais pode jogar com tudo no mercado de capitais, mesmo em aplicações sofisticadas como as opções de compra sobre TNLP4. Gosto de pude comprar uma guitarra sem ter que recorrer ao mercado negro, sem ter que me esconder do governo. Gosto de como posso sair à rua vestido de mulher sem ser preso. Gosto dos lenços de papel Kleenex, macios e, na medida do possível, impermeáveis. Gosto de ler os artigos do Olavo de Carvalho. Gosto de como o Olavo de Carvalho pode chamar o governo atual e o futuro de comunistas filhos de uma hipopótama e não ser preso por isso. Gosto do capitalismo. Gosto.

Não gosto dos artigos em que o Olavo de Carvalho vira um furioso homofóbico. Não gosto do conservadorismo católico. Deixei de ter qualquer coisa contra qualquer coisa - exceção feita ao uso de astrologia nos departamentos de RH das empresas - que não afete o todo da sociedade. De fato, os progressistas católicos me incomodam um pouco mais do que os conservadores católicos, mas pelo geral a ingerência política me incomoda um pouco. Gosto, sim, da Igreja como mega-estrutura política. Gosto de saber as notícias do Papa. Admiro o Papa, e gostaria de bater um longo papo com ele depois de um pouco bêbado, numa choppada de comunicação da UFF - eu já devo estar banido delas. Mas não gosto do conservadorismo, pelo geral. Não gosto do moralismo sexual que a "direita" liberal às vezes espuma. Sou liberal, tanto em matéria de economia como de política, mas não odeio o Clinton e acho ótimo que ele tenha feito das suas com a estagiária. Sou um liberal e não gosto do Bush. Sou de "direita" e gosto de uma música do Blur que prega que as meninas sodomizem os meninos. Quero ser de direita sem ser conservador. Quero poder criticar o Lula e aplaudir as picardices sexuais do Itamar. Sou a favor do comércio internacional, inclusive de pornografia e música ruim. Gosto da alta cultura, gosto de (certa) cultura pop quirky, sofisticada e auto-perceptiva. Acho que a crítica de rock pode ser uma coisa muito mais interessante que a crítica de cinema. Acho Deleuze sexy, embora falho e pretensioso. Gosto mais de seu estilo do que de seus métodos. Gosto de meninas de cabelos escuros curtos. Gosto de objetos culturais que me trazem um clima vagamente subversivo. Prefiro a subversão à "resistência". O uso do termo "resistências" pela esquerda (inclusive em recente seminário transdisciplinar) os torna ainda mais nojentos que os conservadores de direita. Se certo pensamento de esqueda sessentista está morrendo, é porque era uma idiotice, mesmo. Às vezes o liberalismo conflita com a subversão no meu coraçãozinho de lúmpen-intelectual no limbo, mas tomado estritamente o liberalismo cultural é a própria subversão. Gosto de poder gostar de meninas de piercing sem ter que quer usar um. Gosto de poder passar uma mensagem de ambigüidade sexual sem ter que praticar os atos em si. Happens not to be my game, mas gosto de deixar as pessoas em dúvida. Gosto de escalar a linha de prumo, gosto de me equilibrar em cima do muro.

A diatribe clássica sobre rótulos terminaria com "Será que sou de esquerda ou direita?". Ou, reversamente, "Não dou a mínima". Eu não queria entrar em uma diatribe sobre rótulos, eu só queria escrever um monte de frases sobre gostar-não-gostar.

13.12.02

O que eu mais queria neste instante é ser o Brian Scott.

AC/DC ocupa um locus estranho. Não é particularmente inovador, particularmente sofisticado, ou particularmente peculiar. Tem um sabor de óbvio e genérico, mas simplesmente não há um outro exemplo de genérico-hard-rock-AC/DC. Não é apenas o típico caso de inventores de gênero que se tornam genéricos; não há clones de AC/DC como há clones de Black Sabbath, e isso é dizer muita coisa.

Por outro lado, AC/DC é um exemplo eloqüente de como as coisas mais simples, mais anti-cerebrais do rock trazem toda uma bagagem de significados culturais bem mais sofisticados. Quando uma banda se torna tão popular como esta, os significados penetram a consciência coletiva. O uniforme escolar do Angus Young é, antes de tudo, uma referência a uma tradição repressiva da educação britânica. E fica claro, na sua selvageria epiléptica no palco com a guitarra todo um discurso que está espalhado pelo rock - oposição à academia, o rock versus a escola, liberdade versus repressão. Não por acaso existe um filme por aí chamado "Rock'n roll High School", com o Twisted Sister ou o Ramones, não lembro.




Há um outro filme que explicita como pode ser política e revolucionária a sátira e a desconstrução da hierarquia da educação britânica: "If", de Lindsey Anderson. Legítimo representante do free cinema inglês, compartilha com algumas coisas americanas como "A primeira noite de um homem" a subversão declarada, sem meias palavras, de um final desconcertante. Em "If", os estudantes, liderados por Malcolm McDowell (o protagonista de "Laranja mecânica") pegam em armas contra a escola, contra os professores, contra o sistema.

É um filme fascinante, que quase ninguém viu. Mas essa mitologia toda da educação repressiva britânica, do angry young men britânico, e ao mesmo tempo do rock como subversão da academia (we don't need no education) está lá, na presença de palco convulsiva de um guitarrista que por si só não tem nada de especial. Na verdade, bandas como o AC/DC são muito mais interessantes do ponto de vista da crítica de rock do que coisas como Stratovarius - é algo que me deleita, mas que está colocado de forma muito simples e direta numa tradição específica.

Quero crer que em determinado momento o modo industrial de produzir música - com um aparato massivo de propaganda que é capaz de te fazer gostar de qualquer coisa - não torna o mundo da cultura pop determinístico. Eu continuo vendo Strokes como algo que furou o cerco. Algo que traz tantos signficados culturais pendurados em cada pequeno detalhe que se torna popular porque cria uma experiência sofisticada e polissêmica. Nesse sentido enviesado, Strokes é mais herdeiro de AC/DC que de Velvet.

Preciso, um dia, sistematizar todos esses meus conceitos. Me fascina, quando leio Robert Duncan, como ele faz, a partir de manchinhas, um quadro impressionista da zeitgeist de sua época. Nosso tempo não tem um narrador desses. Ah, as ambições...

8.12.02

Os meus oxímoros favoritos, número 10: "A melhor balada a tocar no rádio"

7.12.02

No fundo, os canhões de 'For those about to rock' do AC/DC são os mesmos canhões da "Overture 1812" de Tchaikovski. Com a pequena exceção de que um fala de epicurismo, e o outro de estoicismo.

5.12.02

Será que eu fui o único que percebi como aquele novo hit
dos The Hives é igualzinho a "Song 2" em riff e estrutura?


You%20are%20The%20Great%20Escape
Which Blur Album Are You?

brought to you by Quizilla




Eu deveria escrever mais. Comecei com a firme resolução de não me permitir escrever demais. Em parte porque, em fim de período, não podia me permitir ficar tempo demais sem fazer nada, ou fazendo coisas que não conduziam a um CR maior.

Fiquei, do mesmo jeito, aprimorando a minha palhetada alternada e correndo atrás da burocracia pra abrir uma conta em uma corretora de ações. No entanto, nada de escrever no blogue.

E bem, isso pode ficar preocupante. Aparentemente, tenho um pequeno número de visitantes fiéis - gente que eu não conheço, com provedores de cidades que nunca visitei, e que volta todos os dias pra ver se algo de novo aconteceu. Vão acabar desistindo se essa pasmaceira continuar.

Parte do conflito que imobiliza o blog é o seguinte: o Amigo Kauffie me adverte contra a autocomiseração juvenil da CT. E eu bem sei que às vezes a auto-indulgência emo pode estar muito abaixo dos limites do bom gosto.

(Literatura emo! Como ninguém pensou nesse conceito antes? O que explica a profusão de histórias estritamente pessoais pela web mais claramente do que comparações com Paris-Texas e Sunny Day Real Estate?).

Há um impasse. Ser grandiloqüente exige tempo de pesquisa, e o tom messiânico acaba soando falso do mesmo jeito. Principalmente em um blog. Ser imediato e emo gera uma grande produção de interesse nenhum.

O que é que eu quero dizer, mesmo?

Então, os Corvus Corax. Eu fico mesmo sem saber se o leitor típico vai pescar as referências. O objetivo final de um blogue seria criar um sistema pivotante de inter-referências , mas eu estou cansado de fazer planos.

O fato é que os Strokes andaram sendo exaltados por aí como salvadores messiânicos, como redentores, como um return-to-basics que tiraria o rock do naufrágio.

Há formas demais de ler isso. Por um lado, mais do que quinze clones de Creed, o sucesso dos Strokes trouxe sustentação material que fará com que a indústria continue investindo em bandinhas por mais algum tempo.

*pausa para aprender o solo de guitarra de "Trying your luck"*

Mas é claro que isso não é o mais importante. Se eu desse a mínima para o futuro econômico das bandas de rock como um todo, adoraria a agonia plastificada do Kurt Cobain.

Strokes é uma banda muito bonitinha. Tem três músicas irrepreensíveis - "Is this it?", "Barely Legal" e "Trying your luck".

Pelo menos na minha cabeça - e é isso que importa, porque este blog é sobre o fascinante universo cultural que é a mente de Diego Navarro - "Trying your luck" conta a história de alguém que tenta se aproximar, conquistar uma pessoa por tédio, por carência, e por tentar o risco. "I'm trying my luck with you".

E se não for, eu não dou a mínima. Aspirante a produtor de cultura, tentei compreender as relações entre obra e interpretação, entre criação e representação, essas coisas todas. Consumidor de cultura, ouço música como um apreciador de queijos.

Bom, de volta ao tópico. A coisa realmente inteligente sobre Strokes é a dialética entre o discurso do world-weary, tirado diretamente do Velvet Underground, e o da fragilidade, que motiva comparações com os geeks do Weezer.

Velvet está vomitado diretamente em "Last Nite" e "The Modern Age". Mais interessantes é a fragilidade que está numa "Trying your luck". Depois de "Paranoid Android", é a música que vem à minha mente quando as pessoas começam a me tratar como um CR ambulante.

O que nos traz de volta ao tema do pessoal versus intelectual. Esta não é a Dialética do Iluminismo de Theodor Adorno, ou o Cânone Ocidental de Harold Bloom. Como a vedete do "TNT Independente", acredito que ninguém vê o mundo como eu vejo, e o tema do blogue é o mundo como idéia, o mundo como representação na minha cabeça.

O fato é que Strokes não é messiânico. Strokes é desesperado. Não num sentido agonia-plática à Nirvana, mas no sentido de abandono completo a alguma coisa que faça algum sentido. Na letra de "Barely Legal" é o sexo, na de "Trying your luck" é o flerte gratuito, mas em todas as músicas, é o abandono com que a música é feita.

Cada nota repetida do riff agudo de "Trying your luck" diz "isto é tudo o que eu sei fazer direito, mesmo".

Corvus Corax é outro jogo inteiramente. Os Corvus Corax não se auto-intitulam salvadores, mas propõem uma ruptura radical com as mitologias que os Strokes abertamente abraçam e fundem. E não usam guitarras.

Strokes, nesse sentido, seriam conservadores. "Trying your luck" um manual de leitura de Burke.

Embora Corvus Corax freqüentemente incorpore a tradição fascista do heavy metal, há um elemento primal, masculino, que se opõe diretamente à sofisticação cultural do mito meramente retórico da violência pela violência do heavy metal. Todo tipo de gente frágil ouve heavy-metal porque transmite força.

Corvus Corax não transmite força. Pelo contrário, dá uma sensação de fraqueza relativa. O ritual fascista da música neo-medieval tem claros os líderes, os objetivos, e a exigência de deixar tudo pra trás. Sem palavras, "Bärentanz" berra "juntem-se à tanzwut, à dança da morte" - às colunas de pessoas que ao saber da peste negra passaram a rejeitar o mundo e dedicar-se a celebrar a vida até as últimas energias.

Só um objeto cultural tão intensamente primal e messiânico como o Corvus Corax pode ser pensado como "salvador". Perto deles, eu e os Strokes somos menininhas frágeis.

2.12.02

Os Corvus Corax são os verdadeiros salvadores do rock.

E tenho dito.

29.11.02


Invictus

OUT of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

(William Ernest Henley. 1849–1903)

26.11.02

As pessoas têm uma relação emocional demais com a chuva.

Há a chuva poética. Em geral experimentada quando a observamos de uma janela, protegidos por uma sala seca. O cinzento do céu nublado se refletindo em cada gota de água que cai, uma sensação de distância, de nostalgia, como se estivéssemos em uma realidade seca fora da realidade concreta e molhada da chuva. Lembro de como me pareciam excitantes umas fotografias em preto-e-branco, muito granuladas de gente correndo pela praça do Kremlin nos dias da revolução de Outubro. Algo tão diferente da pasmaceira, do comodismo, da mediocridade ao meu redor...

Um pouco distinta é a chuva libertária. Afinal, é só água. Andar deliberadamente pela chuva pode ser uma experiência fantástica, algo que te faz sentir livre, algo que te faz sentir vivo, principalmente se houverem pessoas ao teu redor te olhando e achando-te louco. A água. A água. Que parece cair do nada, do vazio, do ar mesmo. Mas a chuva só é libertária até que estamos bem ensopados e os ossos começam a doer.

De qualquer maneira, é radicalmente diferente a sensação da chuva na qual você entra por loucura, por espírito libertário, e a chuva que te pega de surpresa, quando o que mais se queria era estar seco.

A verdade é que a chuva fragiliza. Ela é muito bonita quando estamos sequinhos e protegidos, pode ser excitante por alguns minutos em que optamos pela água. Mas ela incomoda depois de um tempo, incomoda se não nos deixa escapatória, incomoda se sentimos frio, se as roupas aderem ao corpo, se os nossos papéis se transformam em uma única massa de papel molhado. Todas as emoções associadas à chuva poética e à chuva libertária só estão lá porque estamos, em primeiro lugar, desafiando o papel tradicional da chuva de imprevisto indesejável e ao mesmo temos a nossa janela de fuga para o seco a qualquer hora.

O Lula é como a chuva.

A diferença é que só ficaremos nela, compulsóriamente, por um bom tempo. É difícil dizer quando as nossas roupas secarão, depois de quatro anos de chuva. Ou quando os ossos deixarão de doer.

25.11.02

Retribuição:

Guidalli.com

Vocês sabem, foi por ler alguns blogues como esse que tive vontade de fazer um. Como disse na minha introdução, tinha, no passado, a sensação de que blogs só produziam autocomiseração estritamente pessoal.

O Guidalli ajudou a recuperar a minha fé perdida no poder subversivo da Internet. Essas coisas ajudam a manter acesa - usando uma imagem gasta e estereotípica, mas tenho muito o que fazer hoje - a chama da esperança.

24.11.02

Como o David Byrne, I hate people when they're not polite.

O pior é que deve parecer uma estratégia oblíqua de divulgação. Não, não, não, eu não tinha a menor intenção de fazer "divulgação" explícita deste blogue.

Não na lista CINEMABRASIL. Acontece apenas que eu coloquei o endereço na minha assinatura automática porque escrevo muito para várias listinhas de grupos pequenos - economia da PUC, comunicação da UFF, fãs de progressivo, operadores da bolsa. É por isso que há uma referência aos tais dos profissionais do cinema como "chacais famintos". No fundo, são pessoas pleiteando recursos públicos para objetivos os mais privados possíveis.

É um escândalo que "Avassaladoras" tenha sido bancado pelo governo pelo mesmo motivo que seria um escândalo se um disco do Kid Abelha fosse bancado pelo erário público. É errado.

E o Diogo Mainardi, sejam quais tenham sido seus resultados estéticos (não vi o filme), provou que não é necessário.

De qualquer maneira, eu vinha tentando abrir espaço para esse tipo de argumento na lista CINEMABRASIL de uma forma inteiramente distinta. Não se insulta de frente as pessoas que você quer convencer. Tenho, sim, a impressão de que a discórdia é desencorajada porque todo mundo pode vir a precisar de todo mundo no futuro, e isso significa claramente um incentivo à desonestidade intelectual. Diz o meu Amigo Kauffie que eu tenho um complexo de mártir. Weeell, eu sou muito menos forte que isso. Daí eu optar pela discussão razoável em listas de e-mail, e não por gritaria nos debates do CBC ou protestos criativos como invadir o Brasil Documenta com dez mendigos nus.

Talvez quando estamos tentando persuadir, a discussão razoável seja um substituto ruim para a gritaria e as técnicas de persuasão irracional da publicidade e da ideologia. Mas na busca da tal da verdade (que em paz descanse), a discussão razoável é bem mais útil, e, se sofisticada o suficiente, bem mais agradável. É difícil separar os dois objetivos, e isso foi colocado melhor pelo d.a. levy: verdade e auto-percepção são como dois pássaros tentando deixar o planeta porque estão cansados de morrer.

É claro que o cara meteu uma bala no crânio em 1968. Pra não fazer isso, eu larguei o mundo do cinema altogether. Terei, pelo menos, os prêmios de consolação da cultura de consumo: todos os pedais de guitarra que o dinheiro pode comprar.

Mas a discussão razoável se esgota quando fundimos as premissas com as conclusões, formando um discurso que se auto-alimenta. A é verdadeiro porque B é verdadeiro, e B é verdadeiro porque já tínhamos estabelecido que A é verdadeiro, certo? E então o debate deixa de acontecer.

A cronologia dos fatos segue. Em primeiro lugar, o Dioclécio envia um texto já completamente off-topic acusando a mídia de ser parcial contra o Lula. Mesmo depois de sua eleição. Ora, que tipo de discurso é esse que nos previne que qualquer crítica ou acusação que a imprensa pode fazer é automáticamente mero resultado da parcialidade dos meios de comunicação em favor das "elites tradicionais" e essas coisas todas? Nessa, e em várias outras coisas, sinto um discurso que prepara para a censura. É fato, concreto, que pelo menos um site na Internet que fazia oposição ao Lula foi fechado sob ameaça de custoso processo por parte do sr. André Singer.

E muita gente defendeu a atitude do PT.

Isso me preocupa, com sinceridade. Eu me meto em muitos debates porque os sinto intelectualmente excitantes, mas isto é real, premente e inescapável. Sistemas que se auto-perpetuam reprimindo a crítica são di-ta-du-ras. Pronto, falei.

Eu tenho que reagir a esse tipo de discurso simplesmente porque é o papel de todos que percebem o perigo. Sei que o que posso fazer é pouco. Mas, em vez de responder ao tópico, o Dioclécio optou por se queixar de um comentário maldoso. E assim prosseguem os off-topics. Até que o observador distraido não perceba que diabos esse maluco está falando sobre silepses.

E isso reforça o velho consenso das quietas certezas que nunca foram reviradas.


if they ever organize
the fine arts council, even
the poets will be kept in line
like they are in cleveland
its so easy to convince poets
what poetry is
and what it isnt
& everyone knows
sleeping with the muse
is only for young poets
after you've been kept impotent
by style & form & words like "art"
after being published by the RIGHT publishers
and having all the right answers
after youve earned the right to call yrself
a poet yr dead
& lying on yr back
drinking ceremonial wine, while
the muse, who is always a young girl
with old eyes into the universe
suddenly remembers necrophilia
is an experience shes had before
& shes not interrested
in straddling corpses anymore

(d.a. levy, suburban monastery death poem)

"O que aprendemos da experiência depende do tipo de filosofia que trazemos a ela. Logo, é inútil apelar à experiência antes de elaborarmos, dentro das nossas possibilidades, a questão filosófica." (C.S. Lewis)

22.11.02

Trecho de Psicologia do fanatismo, por Olavo de Carvalho:

"(...) a filiação dá ao fanático uma localização e um ponto de apoio no espaço externo: pela ideologia coletiva ele se integra tão bem no mundo, que nunca se sente isolado e estranho senão pelo curto intervalo de tempo necessário a reconquistar o sentido da sua missão partidária e de seu lugar na História, jogando fora com desprezo o momento de "morbidez". Jamais deslocado neste mundo, ele não aspira a nenhum transmundo senão sob a forma de um futuro cronológico a ser realizado neste mesmo plano de existência. Nada o arraiga mais profundamente na temporalidade, no histórico, do que sua rejeição do presente, contra o qual ele brada: "Um outro mundo é possível", querendo dizer, precisamente, que se trata deste mesmo mundo, tão logo subjugado pelo seu partido. Kant, com ironia involuntária, denominava o espírito da Revolução "sabedoria mundana". A compressão do infinito no finito não poderia ser mais explícita do que no verso do poeta comunista Paul Éluard: "Há outros mundos, mas estão neste." Não poderia? Poderia. Gramsci já apregoava "a total mundanização do pensamento". O fanático, nesse sentido, é desprovido daquela solidão, daquela profundidade, daquela tridimensionalidade próprias dos que "estão no mundo, mas não são do mundo". Ele, ao contrário, pode "não estar" no mundo, mas, com toda a intensidade do seu ser, "é" do mundo."

Pelo menos o Geddy ainda está magro.
Quer dizer, os Yes envelheceram e ficaram com cara de respeitáveis. Os Rush envelheceram e ficaram decrépitos. Isso aí ao lado é o Neil Peart, eu juro.

É bom que eles não envelheceram como músicos, e ainda assumem riscos inacreditáveis como um "Vapor Trails" sem solos de guitarra e tecladeiras de efeito dramático, construído só em cima de texturas de guitarra.
Não que eu tenha qualquer coisa contra tecladeiras, mind you, antes de ser guitarrista sou um tecladista frustrado. Mas que ajudaram muito a diluir a discografia do Rush, ah, isso ajudaram. O Geddy nunca teve lá muito bom gosto como tecladista.

21.11.02

Citação aleatória de Anouilh do dia - ou, lições sobre a natureza do poder para o ex-eterno candidato.

CRÉON: Un matin, je me suis réveillé roi de Thèbes. Et Dieu sait si j'aimais autre chose dans la vie que d'être puissant...

ANTIGONE: Il fallait dire non, alors!

CRÉON: Je le pouvais. Seulement, je me suis senti tout d'un coup comme un ouvrier qui refusait un ouvrage. Cela ne ma pas paru honnête. J'ai dit oui.

ANTIGONE: Eh bien, tant pis pour vous. Moi, je n'ai pas dit "oui"! Qu'est-ce que vous voulez que cela me fasse, à moi, votre politique, votre nécessité, vos pauvres histoires? Moi, je peux dire "non" encore à tout ce que je n'aime pas et je suis seul juge. Et vous, avec votre couronne, avec vos gardes, avec votre attirail, vous pouvez seulement me faire mourir, parce que vous avez dit "oui".
(...)
CRÉON: Eh bien, oui, j'ai peur d'être obligé de te faire tuer si tu t'obstines. Et je ne le voudrais pas.

ANTIGONE: Moi, je ne suis pas obligée de faire ce que je ne voudrais pas! Vous n'auriez pas voulu non plus, peut-être, refuser une tombe à mon frère? Dites-le donc, que vous ne l'auriez pas voulu?

CRÉON: Je l'ai dit.

ANTIGONE: Et vous l'avez fait tout de même. Et maintenant, vous allez me faire tuer sans le vouloir. Et c'est cela, être roi!

CRÉON: Oui, c'est cela!

ANTIGONE: Pauvre Créon! Avec mes ongles casses et pleins de terre et les bleus que tes gardes m'ont faits aux bras, avec ma peur qui me tord le ventre, moi je suis reine.

CRÉON: Alors, aie pitié de moi, vis. Le cadavre de ton frère qui pourrit sous mes fenêtres, c'est assez payé pour que l'ordre règne dans Thèbes. Mon fils t'aime. Ne m'oblige pas à payer avec toi encore. J'ai assez payé.

ANTIGONE: Non. Vous avez dit "oui". Vous ne vous arrêterez jamais de payer maintenant!
(....)
ANTIGONE: Je suis là pour vous dire non et pour mourir.

CRÉON: C'est facile de dire non!

ANTIGONE: Pas toujours.

CRÉON: Pour dire oui, il faut suer et retrousser ses manches, empoigner la vie à pleines mains et s'en mettre jusqu'aux coudes. C'est facile de dire non, même si on doit mourir. Il n'y a qu'à ne pas bouger et attendre. Attendre pour vivre, attendre même pour qu'on vous tue. C'est trop lâche

Raios de falta de senso tecnológico. Já transformaram o ICQ Lite em bloatware de novo. Você sabe, o ICQ Lite foi lançado porque o ICQ tinha ficado grande demais, pesado demais, gordo demais, com recursos inúteis demais. Vários dos recursos inúteis foram incorporados ao ICQ Lite agora. Grrrrr.

Peguei o novo do Pearl Jam. Ainda estou ouvindo a segunda metade.

Bem, vamos lá. A primeira metade é decepcionante. As baladinhas soam contritas, e os números hard-rock soam ainda mais fabricados que os do "Ten", o único outro disco do Pearl Jam que conheço. Embora o riff de "Save you" seja legal. Eu já estava desistindo, quando chegou "You are". Uma música só do Matt Cameron! Sempre me decepcionou como o Matt Cameron nunca deu ao Pearl Jam aquela organicidade caleidoscópica vista no Soundgarden - pelo menos no "Superunknown", que poderia ser um disco só de bateria e ainda ser muito fantástico.

"You are" é estruturada em torno de um riff fraturado, solto, numa guitarra hiper-processada, aparentemente tocada pelo próprio Cameron. Tenho o tempo inteiro a impressão de ouvir "a poisoned flower", mas parece que isso não está em lugar nenhum. Mas, bem, a letra vale, as far as Pearl Jam goes, e é tão diferente de qualquer coisa Pearl Jam antes que fico com muita vontade de ouvir um disco solo do Matt Cameron. Eu diria que "You are" está para o Pearl Jam como "Numb" esteve para o U2. É uma banda se reinventando.

Aquela coisa de guitarra processada, dando uma aura mezzo-eletrônica continua em "Wanted to get right", também do Cameron. Coincidência ou não, segue "Green disease", um número que lembra um pouco Buzzcocks ou o primeiro Siouxsie and the Banshees. Pouco inspirado - e do Vedder. O Jeff Ament tem duas músicas - uma baladinha até interessante, com vocais processados, um clima meio Black Heart Procession, e um riff ascendente no refrão fantástico. Essa baladinha é seguida por "Bushleaguer", do Stone Gossard, que é mais um clima, uma mood levada por um longo recitativo que acho que fala de política. "He''s not a leader, he's a Texas leaguer" - isso e o título dão uma pista.

Segue "Half full", um número que parece Pearl Jam clássico, da época do "Ten", e no entanto é a outra música do Ament. Tem um interlúdio meio gospel chamado "Arc" antes de "All or none", um número Pearl Jam típico e menos inspirado do Gossard. Eu fico com a sensação de que o álbum fica dividido entre personalidades distintas de cada membro. "Ten" me pareceu coeso, e se não olhasse na Allmusic, não saberia que também tem músicas só do Ament e só do Gossard. A primeira metade do disco, que é quase toda ruim - exceto por "Cropduster" - de quem? do Matt Cameron - tem ainda uma baladinha escrita pelo tecladista convidado.

E todas as músicas do Vedder são insuportávelmente ruins. If you ask me, era melhor deixar o Matt Cameron escrever todas as canções.

20.11.02

Dois desenhos originais do Cartoon Network que me fascinam. "Coragem, o cão covarde" (perro maricón, no dizer da minha mãe), e "Sheep na Cidade Grande". Unidos pela sitar. Em "Coragem", é a velha (não lembro o nome dela, só o do velho, que é Eustáquio), que em um episódio é inclusive convidada a se apresentar para um show, e fica sem saber que foi tomada como refém por uma abelha gigante para forçar o cão Coragem a ir buscar o Pacote.

Em "Sheep na cidade grande", é um hippie sentado numa esquina que toca a sitar, e às vezes narra as aventuras da ovelha em uma canção. Sheep é um seriado bastante sofisticado, e reincorpora de forma pós-modernosa, sem as tentações da sátira, os tótens narrativos dos desenhos infantis. Sheep vive pela filosofia "Coisa de Hoje do Cartoon Network" (mais sobre isso outro dia), anda pelas ruas meio que sem saber que o General Específico (um desses trocadilhos que se perdem na tradução e ficam sendo coisas enigmáticas, General Specific) conspira contra ele. O General Específico tem uma máquina de guerra movida a carneiro. Sim, o combustível da máquina de guerra do General Específico é carneiro.

O mais divertido de "Sheep" é o locutor, que narra constantemente a história, e às vezes interrompe para intervalos comerciais bizarros de coisas inúteis. É delicioso.

Ainda no capítulo TV, dois quiz shows que são mais ou menos a mesma coisa que os quiz shows tradicionais, e ao mesmo tempo têm textura dramática diferente, se desenrolam de forma diferente. O clássico é "Saber y ganar", da TVE espanhola. Absurdamente difícil. Lembro da época de escola, quando eu e meu only friend Ricardo Hazan (que hoje serve a marinha finlandesa num submarino) torcíamos por algum fulano que era incrível, bateu todos os recordes, chegou ao prêmio máximo de un millón de pesetas e foi tema de um programa dedicado a ele, em que os participantes tiveram que responder perguntas sobre a sua trajetória no programa.

O recente é "National Geo-Genius", da National Geographic. Também é bem difícil, e pra piorar é limitado a um tema só. Em vez de acumular pesetas, os competidores vão acumulando milhas, e ao longo de cada programa, tentam dar uma volta simbólica ao mundo partindo de um ponto qualquer. A cada n perguntas certas, o competidor segue em frente. A apresentadora parece bastante com a Beth Gibbons do Portishead, e é insuportávelmente arrogante.

Mas, bem, é dessas coisas que se alimenta o gosto pós-modernoso por cultura kitsch. Grande parte da graça está na forma como a gente lê esses textos, está na perspectiva de uma certa self-awareness de consumidor de cultura boçal. É uma coisa tarantínica. Já viu termo mais difícil de traduzir do que "self-awareness"?

Cena matutina de feriado municipal. Int dia, cozinha subterrânea daquele seriado do Multishow, Absolutely Fabulous. Por algum daqueles motivos bizarros de comédia britânica, o Eric Hobsbawm resolve visitar a Saffron (raios, ela já recebeu o Tony Blair naquela cozinha), e são interrompidos pela mamãe Eddie que despenca pela escada, apenas para se levantar e dizer qualquer coisa do tipo "Oh, hey Hobs."

Qual será o apelido do Hobsbawm entre os amigos? Hobbie? Bawmie?

Infame, eu sei. E eu fico escrevendo essas coisas em vez de estudar história. Culpa de Bela Fleck e seu "Blu Bop". Vocês sabem, Bela Fleck pode ser o mais importante músico americano desde Charlie Mingus.

19.11.02

Há uns dois anos, escrevi um altissonante e agressivo "Manifesto Anti-blog". Não tenho mais o texto original, mas lembro relativamente bem dos argumentos principais que eu apresentava. A facilidade de publicar levava necessáriamente a um conteúdo raso, tolo, do tipo "sábado à noite beijei a fulana". Acho que dois anos atrás, eu ainda tinha alguma esperança na Internet, e me parecia realmente desnecessário levar quilos de lixo pessoal para consumo público.

Há qualquer coisa de muito significativo, em termos de produção cultural, na infinita redistribuição dos detalhes mais bobinhos da nossa vida pessoal pela Internet. Uma distopia orwelliana ao contrário. O fato é que eu fiz um manifesto, fiz campanha, talvez tenha até levado alguém que na época era amigo a desistir de escrever o blog que ele tinha pra dizer de vez em quando como odiava a própria vida.

Long story short.Mudei a minha vida, mudei o meu ambiente, deixei a faculdade de cinema para trás como um mundo em que todos são ou se tornam chacais famintos, mesquinhos, ruins, egoístas e falsos. E de certa forma rompi com todo mundo daquela época. Tive, sim - não sei se ainda tenho, se continuarei - um projeto alternativo a um blog que era um zine por e-mail para aquelas pessoas do passado na City. Tentei, também, um site, com fundo vermelho, um logotipo interessante, e vários inícios de textos que nunca se acabaram porque eu passava tempo demais definindo categorias, fazendo pesquisa e reflexão, e nunca acabava de fazer nada. Era grande demais para os meus recursos de tempo, preparação e paciência.

Foi uma época de transição estranha, mas finalmente passou, e a CT - aquele emailzine de circulação restrita - esvaziou-se. E há um número de pessoas do meu novo mundo que servem como público-alvo para um novo projeto, mais informal, mais solto, mais ad hoc num sentido hayekiano da coisa. Não estudo mais cinema, não sou mais o lumpen-intelectual subversivo dos tempos do IACS, e como estudante de economia, nem tenho sido tão brilhante assim.

E ainda assim, I've got an angry inch. Vontade de fazer muita coisa e dizer muita coisa. O formato do blog me permite ser menos metódico, e isso ajuda muito. O meu livro sobre o Nine Inch Nails se perdeu num ensaio sobre objetivos e limites da crítica de rock, mas eu posso falar de música de forma simples e espontânea no blog.

E, lição número um sobre o mundo de Diego Navarro, ele é obcecado por música. E coletâneas. Coletâneas são uma forma de arte.

Enquanto digitava esta pequena introdução, passaram pelo aleatório do player de "Dancing with the moonlight knight", do Genesis (de onde sai a citação do título), "Mon mec à moi", da Patricia Kaas (chanson francesa brega with a revenge), "Maybellene", do Chuck Berry, "Angry Inch", do filme "Hedwig", e está tocando agora "Close to the Edge" do Yes.

Visto de fora, o ecletismo me parece uma desculpa ruim pra não ter gosto específico nenhum. Gostaria de ser mais radical com algum gênero, mas as coisas que ouço acabam sendo tão espalhadas no espectro quanto todas as minhas outras preocupações. E bem, como introdução, isso está bom o suficiente.